Tráfico, guerra e superação

O papel da ONG AfroReggae na ressocialização de egressos do sistema carcerário

a black and white photo of a bunch of buildings

Photo by Brunno Tozzo on Unsplash

Photo by Brunno Tozzo on Unsplash

No tráfico de drogas, em geral, ou você é preso, ou você é morto. Em uma caminhada de, mais ou menos, 15 minutos no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, cruzei com pelo menos três bocas de fumo e inúmeros jovens carregando fuzis como se fossem bolsas. Enquanto isso, para os moradores, era uma quarta-feira como outra qualquer. O tráfico é um problema que permeia a vida de milhares de pessoas que moram em comunidades. A sua presença, naturalizada pela população, faz com que muitos jovens ingressem de forma “orgânica” no crime. Mas da mesma forma que é fácil de entrar, é difícil de sair. Egressos do sistema carcerário enfrentam numerosos desafios ao receberem sua liberdade. A falta de oportunidades, que, em primeiro lugar, influenciou a entrada dessas pessoas no crime, se torna ainda maior. Agora, muitos com famílias para sustentar, mesmo desejando mudar de vida, se deparam com uma dificuldade de encontrar empregos, que faz com que a porta de retorno para o tráfico fique escancarada. É nesse cenário que a Agência Segunda Chance, iniciativa da ONG AfroReggae, trabalha para promover a inclusão social de ex-detentos.  

"No Afroreggae, se a pessoa realmente se interessa e se dedica, é a porta que conduz o ressocializado a retornar ao convívio social. Eu sou exemplo disso"

Nei da Conceição Cruz, ex-chefe do tráfico

Criado em 1993 pelo produtor José Júnior, de 56 anos, o AfroReggae era, de início, um jornal que tinha o objetivo de divulgar a cultura negra. Posteriormente, muito influenciado pela Chacina de Vigário Geral, o jornal se tornou uma ONG que realizava trabalhos sociais com o objetivo de tirar as crianças do crime. “Eu sempre vim com o discurso de tirar jovens do tráfico. Ninguém dizia isso, só eu. Isso virou uma marca”, contou Júnior. Após mais de três décadas atuando em diversas comunidades e ajudando milhares de pessoas, a ONG se expandiu e, hoje em dia, além de realizar várias iniciativas sociais, também está no audiovisual, produzindo séries em parceria com grandes emissoras, como Arcanjo Renegado e O jogo que mudou a história, disponíveis no GloboPlay.
“Hoje, o Afroreggae tem respeito da polícia e do bandido”, diz José Junior. Para o produtor, essa credibilidade que atualmente a ONG apresenta, aconteceu devido a mudanças internas. Ele conta que no início não gostavam da polícia, chegando até a ter problemas com ela, mas percebeu que “se quisermos mudar o mundo, precisamos mudar a gente primeiro”. Assim, passaram a buscar entender todos os lados e, então, a mediar conflitos — entre favelas, entre a polícia e o bandido, e entre a polícia e o morador.

José Junior, fundador do AfroReggae (Foto: Reprodução)

José Junior, fundador do AfroReggae (Foto: Reprodução)

Jornal AfroReggae, publicado em Junho de 1995 (Foto: Arquivo AfroReggae/Reprodução)

Jornal AfroReggae, publicado em Junho de 1995 (Foto: Arquivo AfroReggae/Reprodução)

Jornal AfroReggae, publicado em Junho de 1995 (Foto: Arquivo AfroReggae/Reprodução)

Jornal AfroReggae, publicado em Junho de 1995 (Foto: Arquivo AfroReggae/Reprodução)

José Junior jovem (Foto: Reprodução)

José Junior jovem (Foto: Reprodução)

Maurício, ex-traficante e funcionário do AfroReggae a 6 anos (Foto: Reprodução)

Maurício, ex-traficante e funcionário do AfroReggae a 6 anos (Foto: Reprodução)

Agência Segunda Chance (Foto: Instagram/Reprodução)

Agência Segunda Chance (Foto: Instagram/Reprodução)

“É normal meu telefone tocar e eu não atender, mas apareceu a palavra ‘urgente’. Desde 1997, quando recebi uma ligação urgente que marcou minha vida, porque era um garoto que eu tinha tirado do tráfico que tinha sido assassinado, toda vez que aparece a palavra ‘urgente’ eu paro tudo, porque pode ser uma tragédia”, conta Junior. A entrevista com o produtor teve que ser interrompida após exatamente 21 minutos. De acordo com ele, essa palavra apareceu em seu celular e não pode ser ignorada. No dia 5 de Junho, o egresso do sistema penal, Fernando Maurício Fernandes, que trabalha no Afroreggae há seis anos “e nunca fez nada de errado”, nas palavras de José Júnior, havia ligado avisando que tinha saído um mandato de prisão para ele. Foi então que o produtor desligou a nossa conversa e foi até a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) conversar com o delegado. “Imagina uma pessoa inocente ir presa por uma coisa que não cometeu. Por mais que ele tenha sido traficante no passado, ele pagou pelo que fez. Isso era uma coisa nova”, explica. Mais de dez dias depois, o nome de Maurício foi retirado do problema.

A Agência Segunda Chance, braço do AfroReggae, que atua a mais de 15 anos na ressocialização de ex-detentos, teve um papel fundamental na vida de milhares de pessoas como Maurício. Inicialmente conhecida como “Projeto Empregabilidade”, foi a primeira agência do mundo formada “de egressos, para egressos”. Renomeada em 2012 para Agência Segunda Chance, ela procura empresas parceiras para encaminhar egressos do sistema prisional que querem mudar de vida, além de oferecer várias oportunidades de emprego dentro da própria ONG. “A polícia sabe que quem tá aqui, largou”, afirma João Paulo Garcia, um dos diretores da instituição e ex-líder da facção Amigos dos Amigos (ADA). Ele, por exemplo, é um caso de sucesso da Agência, junto de outros dois ex-chefes do tráfico no Complexo da Maré: Amabílio Gomes, do Comando Vermelho (CV) e Nei da Conceição, do Terceiro Comando Puro (TCP).

Nei da Conceição

Filho de uma empregada doméstica e um servente, Nei da Conceição Cruz, de 53 anos, sempre teve que trabalhar muito para ajudar sua família de sete irmãos. Nascido e criado na Favela do Acari, vivia em um ambiente de muita pobreza e desde cedo teve que trabalhar para ajudar em casa. Largando os estudos em uma idade muito nova, já trabalhou em feira, tomando conta de carros, como servente e até catando ferro velho para vender. Foi nesse contexto de miséria que o mundo do crime se tornou atrativo para Nei: “Ou você segue um caminho que vai levar seus filhos para o mesmo lugar, ou você pega um atalho e se arrisca para talvez melhorar sua vida e da sua família

Antes de acumular oito tiros no corpo, 20 anos de prisão, sete filhos e cinco “casamentos”, Nei era mascote de um time de futebol da comunidade. Com o tempo se tornou mascote do próprio dono da boca de fumo, e a partir disso, se desviou de sua estrada. 

Com apenas 14 anos, ganhou sua primeira arma e desde então, foi passando por todos os cargos, subindo os degraus do tráfico até que incomodou um dos donos da favela, que o expulsou da comunidade. Após passar 19 anos da sua vida na Favela do Acari, Nei se mudou para a Vila do João, no Complexo da Maré. 

“Passei anos praticamente carregando só minha arma e duas mochilas, uma com roupas e outra com munições, que era meu material de trabalho”, diz Nei. Durante esses anos, dormia nas lajes das casas, mas rapidamente se tornou braço direito do dono da favela e, com sua prisão, virou um dos líderes, do até então Terceiro Comando (TC). Em 2003, foi preso pela primeira vez. Nessa sua passagem pelo cárcere, Nei afirma se descobrir autodidata, e assim concluiu o ensino fundamental e o ensino médio durante os cinco anos que ficou em reclusão: “Tentei fazer o vestibular para uma faculdade, mas lá dentro eu não tive acesso a materiais, ou seja, não consegui”.

Nei da Conceição no set de Arcanjo Renegado (Foto: Instagram/Reprodução)

Nei da Conceição no set de Arcanjo Renegado (Foto: Instagram/Reprodução)

Nei com seu pai (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

Nei com seu pai (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

Neste intervalo, antes de Nei ser preso, já havia se iniciado uma guerra sangrenta, um racha na facção, que perdurou durante sete anos. Essa briga se iniciou após um conflito que encerrou a aliança, recém-criada, entre a facção Amigos dos Amigos e o Terceiro Comando. Nesse contexto de instabilidade no TC, Nei e seus amigos “refundaram” a facção, adicionando mais uma letra na sigla, que de “Terceiro Comando” se tornou “Terceiro Comando Puro” (TCP). Durante seu período no cárcere, o TCP perdeu muito espaço para a ADA. Assim, em 2009, após voltar para as ruas, em apenas cinco meses, ele conseguiu recuperar todo esse espaço “perdido”: “A gente acha que é dono de algo que não é nosso, mas a gente só consegue reparar isso quando tá fora”.

Pouco tempo depois, no final do mesmo ano, Nei foi preso novamente, enquanto estava foragido no Guarujá, no litoral norte do estado de São Paulo. Dessa vez, foi encaminhado diretamente para o presídio federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde ficou por oito anos. Foi nessa segunda passagem pelo sistema carcerário, que o ex-traficante decidiu voltar a estudar, coisa que afirmou que poucos decidem fazer. Conseguir se formar em uma faculdade é difícil, já que professores não podem entrar na cadeia, e aulas online não são permitidas. Com isso em mente, decidiu estudar por conta própria.

Foi assim que encontrou um hobbie no aprendizado de novos idiomas. Aprendeu inglês e espanhol, lendo, decorando e tentando entender todo material que tinha disponível. Decidiu se aventurar em francês, língua pela qual se apaixonou, italiano e até hebraico. Ao longo desse tempo, também realizou todos os cursos profissionalizantes possíveis, até que após aproximadamente seis anos, teve a oportunidade de se formar em uma faculdade de teologia.

“Eu já entrei pensando que queria sair, mas eu decidi sair quando atingi o meu objetivo principal de ver meus filhos fazendo faculdade, e eu ter quebrado esse ciclo vicioso de miséria”, conta Nei. Em 2014, então, escreveu uma carta para José Júnior, que realizou visitas, tanto online, quando ainda estava no Centro-Oeste, quanto presenciais, quando, em 2018, voltou ao estado. Com anos de leitura de várias revistas de notícias, conheceu a história do produtor e enxergou no AfroReggae um norte: “Ele mudou minha vida, no sentido de acreditar em mim”.

Em 2023, conseguiu finalmente sua liberdade condicional. A partir desse momento, passou a trabalhar no audiovisual do AfroReggae, como consultor de roteiro e consultor tático. Pensando nisso, realizou uma pós-graduação em cinema, um MBA em direção de arte e mais dois cursos de roteirista. “No AfroReggae, se a pessoa realmente se interessa e se dedica, é a porta que conduz o ressocializado a tornar ao convívio social. Eu sou exemplo disso”, explica Nei.

Nei com seus certificados (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

Nei com seus certificados (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

“Canto de estudos” de Nei (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

“Canto de estudos” de Nei (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

Nei com os filhos (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

Nei com os filhos (Foto: Acervo Pessoal/Reprodução)

O ex-chefe do tráfico não atribui sua ressocialização ao sistema: “O sistema carcerário não está voltado à ressocialização, eles estão sempre naquele mesmo lema de punir, punir, punir. Esse é o pior possível, é um sistema que eu acredito que não dá certo, porque as pessoas entram ruins e saem pior”. Além disso, afirma, que mesmo em um ambiente hostil, sempre teve o princípio de fazer coisas boas, ajudando quando podia, e isso foi muito importante para sua inclusão social. “Eu estava procurando entrar para mudar o ciclo vicioso de pobreza e miséria, mas eu sabia o que eu queria e não queria. Procurava fazer coisas boas, em um ambiente hostil, com pessoas hostis, mas buscava fazer de forma diferente”, conta.

A Agência Segunda Chance, nas palavras de Nei, o deu sua primeira chance real: “Uma que eu sempre quis ter lá atrás e não tive”. Atualmente mora no Rio de Janeiro, coisa que achou que nunca mais iria conseguir fazer devido a perseguição da Justiça — foi acusado em mais de 50 inquéritos, dos quais foi condenado em somente três. Assim como acontece com vários egressos, isso ocorreu com ele devido às pessoas acreditarem que era um “mito”, colocando seu nome em vários processos, de forma “aleatória” — e trabalha na criação de séries audiovisuais. Nei da Conceição Cruz, conhecido também como Nei Facão, hoje tem a vida transformada: “Eu posso falar que sou o único chefe que teve um nome que está em liberdade trabalhando, estudando e ressocializado”.

Amabílio Gomes

O Comando Vermelho (CV), é uma das maiores facções do Brasil, tendo influência em quase todo território nacional. No Complexo da Maré, 38,7% dos habitantes vivem em áreas dominadas pela facção, que comanda quatro das 16 favelas do complexo. Entre elas está a comunidade da Nova Holanda, onde nasceu e cresceu Amabílio Gomes Filho, de 47 anos, ex-chefe do tráfico na favela. Filho de uma mãe viúva e caçula de quatro irmãos, sempre teve uma condição de vida muito pobre, e por isso, passava suas férias de verão na casa de sua tia que ficava na Praia de Ramos, onde atualmente é o Piscinão de Ramos. Foi lá que o crime entrou em sua vida.

Amabilio descreveu seu primo, Paulo Henrique, também conhecido como Patinho, como “muito para frente”. Tinham a mesma idade, mas seu primo sempre arrumou muita confusão, ninguém gostava dele porque brigava muito. A cada férias que se passava ele ficava “mais para frente ainda”, até que começou a fumar maconha, e pouco depois já andava armado e estava envolvido com o crime. “E eu fui na onda dele”, afirma. Assim, escondido da mãe, também passou a se envolver quando estava em Ramos, e apesar de no início não participar de nada na Nova Holanda, com a cabeça já influenciada, começou a gradualmente entrar no crime na sua própria comunidade.

Primeiro, começou a fumar maconha e andar com pessoas que fumavam. Pouco depois, passou a ganhar dinheiro cometendo furtos no centro do Rio de Janeiro, quando foi preso menor de idade, e toda sua família descobriu que havia se desviado. Em seguida, virou soldado do crime, sendo baleado duas vezes, até que em 2003 se tornou gerente geral da favela. Com a morte do até então dono da comunidade, a liderança ficou para o gerente geral, o que fez com que, em 2004, Amabilio passasse a comandar o tráfico de drogas na Nova Holanda e em Rubens Vaz. 

”Eu nunca quis ser a liderança, e quando eu cheguei nela, eu comecei a sonhar com a liberdade que eu tinha”, afirmou o ex-traficante. Com mandatos de prisão em seu nome, teve que passar a fazer as coisas escondido e, após a morte de um amigo próximo, em uma troca de tiros com a polícia, decidiu ir viajar com a sua família para a Praia de Palmas, em Ilha Grande. Foi lá, enquanto observava sua filha brincando na areia, que pensou: “Se eu morrer, vou deixar minha filha aí”. Nesse momento, começou a florescer um desejo de mudança dentro dele.

Logo em seguida, em 2014, durante a ocupação do Complexo da Maré pelas forças armadas, foi preso e levado ao presídio federal de Catanduvas, no estado do Paraná. No cárcere, onde vivia em um Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), ou seja, tinha 22 horas de reclusão e somente duas horas de banho de sol, passou a tomar gosto pela leitura. Assim, decidiu estudar na tentativa de diminuir sua pena, voltando à escola, participando de um curso básico do SENAI e de um projeto chamado “Remição pela leitura”. Esse projeto permite que detentos reduzam a sua pena através da leitura de uma obra literária, científica ou filosófica por mês, com a realização de uma resenha. Logo na primeira vez que participou, Amabilio tirou 9,5 na resenha, isso serviu de motivação para que começasse a ler com muita frequência e sempre participar, chegando a ler dois a três livros, de aproximadamente 300 páginas, por semana.

Um livro de crônicas sobre um pai e filho o marcou em especial: “Eu estava viajando, rindo pra caramba, porque o ‘cara’ era pai de um adolescente que estava crescendo, e a minha filha tinha 11 anos na época. Eu fui me colocando no lugar dele, e aquilo foi engraçado para mim. Aí eu entendi que o livro tinha me tirado dali e decidi me aprofundar mais”. A leitura para Amabilio, então, funcionou como um refúgio, e aliviava o peso da cadeia. Foi lendo histórias, biografias e a bíblia, que decidiu de forma definitiva parar com o crime.

Amabílio na Agência Segunda Chance (Foto: Reprodução)

Amabílio na Agência Segunda Chance (Foto: Reprodução)

Amabílio com família (Foto: Instagram/Reprodução)

Amabílio com família (Foto: Instagram/Reprodução)

Com esse pensamento, após quatro anos de cárcere, começou a ser absolvido de todas as suas condenações, largou tudo e, a convite de José Júnior, entrou no AfroReggae. Logo no início, após receber sua liberdade, concluiu o ensino médio e trabalhou por três meses na ONG sem remuneração, até que surgiu uma parceria com a Redes da Maré, onde trabalha até hoje como articulador e pesquisador do projeto “Construindo Caminhos” — que busca fortalecer pessoas que passaram pela prisão, e seus familiares, que desejam novas oportunidades de inserção social e profissional — além de ser agente social da Agência Segunda Chance e ajudar no audiovisual do AfroReggae com serviços de motorista, consultor e até ator. Em busca de contribuir mais para o audiovisual, Amabilio está fazendo um curso de operação de câmera, mas deseja, ainda, realizar um curso de roteirista: “Eu gosto de escrever, mas faltou ainda oportunidade e dinheiro”.

Querendo ou não, o tráfico de drogas realiza um trabalho social na favela, ajudando muitos moradores. O ex-chefe do tráfico, destacou um momento em que um jovem, formado na universidade, pediu ajuda financeira para pagar as contas. Porém, logo em seguida, ouviu no jornal que a “educação muda vidas” e não acreditou na frase. Foi somente após passar pelo sistema prisional, e começar a estudar, que percebeu que a leitura tirou a sua ignorância, e o fez entender suas atitudes erradas. “Se tiver uma educação de ponta nas favelas, a criança vai ter mil possibilidades para não entrar no crime. O que falta é oportunidade e variedade”, explica.

Hoje em dia, Amabílio atua, com o projeto do Redes da Maré, na área em que antes liderava o tráfico. Isso apresenta uma grande importância para “mexer com a cabeça dos jovens”, demonstrando que, mesmo em um lugar que antes cometia crimes, usava drogas e fazia coisas erradas, pode se nascer coisas boas, só depende da força vontade e da ajuda dos outros. “Muitos acham inacreditável que eu larguei aquele poder, de ser dono da favela, para trabalhar e ganhar salário”, conta. Quando ocorreu a entrevista ele me atendeu no carro, no único momento da semana que estaria livre, pois mais tarde daquele mesmo dia iria viajar para o Beto Carrero World com sua família, em comemoração ao aniversário de sua segunda filha que completava 7 anos de idade. Ele explicou, que para fazer o que antes dava dinheiro para outras pessoas irem passear, hoje precisa passar meses pagando. Mesmo assim, enfatiza o lado bom: “Hoje eu vivo em paz”.

João Paulo Garcia

Ele dividia um sonho com milhares de meninos no Brasil: “Eu queria ser jogador de futebol”. João Paulo Garcia dos Santos, de 44 anos, nascido e criado na comunidade da Vila do Pinheiro, no Complexo da Maré, se imaginava jogando bola, mas acabou sendo levado para outro caminho, o do tráfico de drogas. De acordo com o Censo populacional do Complexo, realizado em 2019 pelo Redes da Maré, a sua população é majoritariamente composta de jovens, sendo mais da metade (51,9%) menor de 30 anos. Apesar disso, apenas 37,6% dos moradores completaram o ensino fundamental. Essa baixa porcentagem expõe a falta de oportunidade presente nas favelas, que facilita a entrada ao crime. “O que aconteceu comigo, acontece com vários jovens”, conta. 

Para João Paulo, a favela é uma “prisão sem muro”, ou seja, dentro dela, os moradores vivem em uma forma de “isolamento”. É uma bolha, onde há poucas oportunidades e uma cultura própria, e é nesse contexto que o crime marca presença: “O tráfico é cultural, desde que eu me entendo como gente, o tráfico já existia. Você cresce convivendo com ele, indiretamente. Essas coisas culturais, como bailes e pagodes, e problemas que acontecem dentro da comunidade, é o tráfico que resolve. A porta do crime tá escancarada.”

João Paulo Garcia (Foto: Instagram/Reprodução)

João Paulo Garcia (Foto: Instagram/Reprodução)

João Paulo ao lado de filha e mãe (Foto: Reprodução)

João Paulo ao lado de filha e mãe (Foto: Reprodução)

O crime tem seus fascínios. O que chama a atenção de muitos jovens que entram para a criminalidade, é o fato de o bandido ter “dinheiro, os melhores carros, as melhores mulheres e uma representatividade” dentro da favela. Atraído por isso, e com a forte influência de suas amizades, a transição de João Paulo para esse mundo aconteceu de forma “natural”. Foi fazendo pequenos favores e convivendo em meio ao tráfico que, desde seus 14 anos, foi crescendo dentro da “empresa do crime” — fazia parte da facção Amigos dos Amigos (ADA), que teve seu auge nos anos 2000, e atualmente, de acordo com o Mapa Histórico de Grupos Armados no Rio de Janeiro, realizado pelo Instituto Fogo Cruzado, ocupa somente 2,4% da capital carioca — até que, com a prisão do, até então, dono da favela, ele se tornou o líder do tráfico em cerca de 10 comunidades na cidade.

”É um caminho sem volta. Foi quando eu ganhei meu primeiro mandato de prisão que minha ficha caiu. Fora outras coisas, eu já fui baleado e já fiz coisas que eu poderia ter perdido a vida. Até isso, quando você é novo, na sua adrenalina, vai tirando de boa, mas quando saiu minha foto no jornal e eu ganhei meu primeiro mandato de prisão que eu falei  ‘caramba, agora deu ruim’”, explica o ex-traficante. Enquanto não era procurado, vivia uma vida normal, ia a praia, entrava e saia do Complexo sem problemas, até que passou a ter representatividade no tráfico e sua vida mudou. 

Em 2007, João Paulo é preso já com o pensamento de não querer mais essa vida para ele. Entretanto, como já havia uma liderança, seguiu dentro do sistema, “a cadeia é uma continuação do crime fora da rua. Se você tem uma representatividade e manda, vai continuar mandando na cadeia e fazendo articulações”, conta. É dentro do cárcere, então, que com o adoecimento e a morte de seu pai, e o fato de não poder estar presente com ele e sua família no momento, percebe  de vez que queria sair do crime. As visitas de sua mãe na cadeia também influenciaram sua decisão: “Ela tinha que tirar a roupa e fazer aqueles procedimentos de revista. A minha mãe, que é a pessoa mais importante da minha vida hoje, teve que passar por esse constrangimento por causa de mim. Foi aí que eu vi que na verdade não era ninguém.”

Após somente dois anos dentro da prisão, em 2009, o ex-chefe do tráfico recebeu sua liberdade após ser absolvido em alguns processos. Porém, mesmo sem querer voltar para o crime, se vê sozinho, sem ninguém que o acolhesse, e passa, então, a assumir somente uma favela. Nesse momento que o Afroreggae surge em sua vida. “É muito difícil parar com a criminalidade. Tem muitos policiais que não entendem que você parou com o crime. Eles te sequestram, te forjam e te levam preso. Chega na delegacia e é a sua palavra contra a deles. Por isso eu voltei para a favela, e hoje eu digo, que se não fosse o Afroreggae, ou eu estaria morto ou estaria preso, não ia parar com o crime”, explica. João Paulo já conhecia o trabalho da ONG e, no mesmo ano, recebeu uma oportunidade de José Junior de ingressar na instituição através da Agência Segunda Chance: “Foi o único lugar que eu vi que poderia estar ali, bem acolhido, e a polícia respeita. Larguei tudo e fui trabalhar.”

Há 16 anos, começou no Afroreggae como agente de projetos, cuidando dos patrocinadores institucionais, em seguida assumindo todo o setor de compras da ONG. Com a abertura de uma Agência Segunda Chance em São Paulo, para consultoria, o coordenador da época vai até a capital paulista, o que fez com que João Paulo passasse a assumir a Agência. Atualmente, o ex-chefe do tráfico é também um dos diretores da ONG e produtor de locação de favelas para o audiovisual do Afroreggae. Nesse meio tempo, teve a oportunidade de fazer uma faculdade de direito e viajar para Espanha para realizar um curso de espanhol, em parceria ao Santander.

A entrevista aconteceu por uma ligação de vídeo, enquanto João Paulo estava no carro voltando de Vigário Geral, onde tinha ido entregar suco para crianças do projeto social que a ONG realiza na região. Hoje, com o trabalho na instituição, o ex-traficante busca mudar vidas, ajudar egressos e suas famílias e dar oportunidades, que ele não teve, aos jovens das periferias: “O mais gratificante é eu poder tirar tudo daquela vida ilícita, transformar agora para vida lícita e salvar pessoas como o Afroreggae me salvou.”

João Paulo em Barcelona (Foto: Instagram/Reprodução)

João Paulo em Barcelona (Foto: Instagram/Reprodução)

João Paulo com José Junior, trabalhando juntos no audiovisual do AfroReggae (Foto: Instagram/Reprodução)

João Paulo com José Junior, trabalhando juntos no audiovisual do AfroReggae (Foto: Instagram/Reprodução)

"Tem milhares de pessoas que estão dentro da favela, que são traficantes, que querem largar o crime. Hoje eles veem o Afroreggae como uma luz no fim do túnel. Eles tem um caminho que possam trilhar"

Joao Paulo Garcia, ex-chefe do tráfico

Os três ex-chefes do tráfico, cada um de sua respectiva facção, já trilharam guerras sangrentas dentro do Complexo da Maré. Atualmente, não apenas trabalham juntos no Afroreggae, como são amigos. “Eu e Amabilio éramos inimigos, e hoje eu posso falar que ele é um dos meus melhores amigos. Ele vai na minha casa, eu vou na casa dele e a gente trabalha junto por um prol comum”, conta João Paulo. Amabílio, por sua vez, divide o pensamento: “Porque eu vou dar tiro no João Paulo se ele tem o mesmo sonho que eu? Que é cuidar da família, ser feliz e ter paz.” 

As suas diferenças, que por anos os tornou rivais, hoje em dia, não têm mais espaço em suas vidas. A ONG Afroreggae — e todas as suas iniciativas, mas em especial, a Agência Segunda Chance — não só ajuda a direcionar jovens ao caminho contrário do crime, como muda as vidas de milhares de egressos do sistema prisional, os oferecendo oportunidade e confiança para que eles alcancem o que desejam. João Paulo explica: “O Afroreggae é uma realidade. Todo mundo sabe do nosso passado, de uma guerra que a gente trilhou e hoje a gente vive em harmonia. Se fosse uma coisa ‘fake’ isso não iria acontecer, a gente iria continuar com aquele resquício que o crime nos dá. É uma realidade comprovada.”

João Paulo, Nei e Amabílio, respectivamente, juntos na sede do AfroReggae (Foto: Cesar Diogenes, UOL/Reprodução)

João Paulo, Nei e Amabílio, respectivamente, juntos na sede do AfroReggae (Foto: Cesar Diogenes, UOL/Reprodução)