Tatame de oportunidades

Instituto Reação promove a vida através do judô

Naquele dia Leonardo acordou bem cedo e ansioso. Saiu da sua casa na Dionéia, um bairro da Rocinha, em direção à Ilha do Fundão, que na época, era onde ficava a Federação Brasileira de Judô. Chegou, sentou-se em forma e aguardou seu nome ser chamado. Por mais que o friozinho na barriga fosse incontornável, ali já estava tudo resolvido. Ele passou o último ano inteiro sendo examinado, treinando todo final de semana, participando de competições, tendo aulas teóricas, provas escritas e práticas. No fim, deu tudo certo. Aquela sensação de merecimento e dever cumprido selava uma trajetória de anos e abria novos caminhos. Finalmente, uma voz: “Leonardo Barbosa, a frente, por favor”. A partir daquele momento, ele levaria na cintura uma faixa preta de Judô.

Léo, que hoje tem 33 anos, começou a treinar por volta dos anos 2000 com oito anos, convencido por um amigo. As aulas aconteciam na Via Ápia no “Projeto Criança Futuro”. Um dos professores era Flávio Canto, que, mais tarde, seria medalhista olímpico, ganhando o bronze nos Jogos de Atenas. Em 2003, Flávio funda, junto com seu ex-treinador Geraldo Bernardes e outros, o Instituto Reação que na época acontecia em três pólos. Um na Rocinha, outro na Cidade de Deus e mais um na Pequena Cruzada. Hoje, o Instituto está em cinco estados brasileiros (Rio de Janeiro, São Paulo, Cuiabá, Rio Grande do Norte e Minas Gerais) e conta com 12 polos.

Geraldo Bernardes também foi técnico de Rafaela Silva

Geraldo Bernardes também foi técnico de Rafaela Silva

Desde o começo a ideia do Flávio era ir além das aulas de artes-marciais. O objetivo central era ensinar jovens a reagirem, aprenderem a cair, levantar, acreditarem em si e nos em volta. O lema? “Formar faixas-pretas dentro e fora do tatame.” Para tanto, o instituto foi crescendo e estruturando cada vez mais projetos. “Desde sempre, entendemos o esporte e a educação como ferramentas muito potentes”, afirma Juliana Borenstein, Gerente de Programas e funcionária do Reação desde 2015. Além do “Escola Faixa-Preta”, que oferece aulas de judô e jiu-jitsu, há também os programas “Reação Educação”, “Reação Olímpico”, “Bolsas de Estudo”, “Reação com Elas”, “Reação Conecta" e outros. Por meio da ação integrada de senseis, pedagogos e gestores o Instituto alcança, no polo Rocinha, mais de 600 alunos, e ao todo somam cerca de 4500 beneficiados. 

“É um dever meu agora, transmitir todo esse conhecimento que eu recebi. Quanto mais a gente passa adiante o que foi bom para a gente, nos tornamos maiores”
Leonardo Barbosa

Educação, Bolsas e Conecta

O programa “Reação Educação” oferece aulas e atividades complementares à escola. “A gente busca desenvolver as habilidades e trabalhar os conteúdos que na maioria das vezes não estão sendo abordados em sala de aula”, conta Mariana Barbosa, que entrou no Reação como educadora em 2016 e hoje coordena o programa em todos os estados. As atividades são organizadas por cinco faixas-etárias, dos mais novos de 4 a 6 anos até os mais velhos acima de 16. Os projetos pedagógicos tratam das temáticas que são relevantes para cada uma dessas faixas e são pensados de forma conjunta por educadores do Reação em todo o país. 

A cada ano é eleito um tema e a partir deste os projetos são construídos. O tema deste ano são os sonhos. Sonho enquanto desejo de um futuro diferente no âmbito individual e coletivo. E sonho enquanto criatividade e imaginação. Para trabalhar os objetivos de vida com os alunos de quatro anos, por exemplo, Mariana relata que um dos assuntos abordados é a noção de tempo: o que são meses, dias, horas... Na ideia de que, para se ter metas, primeiro, é preciso saber quando e como se planejar. Já no âmbito coletivo, diz Mariana: “A gente trabalha o sonho da construção de uma sociedade. Que sociedade é essa que estamos construindo juntos?”. Para isso, nas turmas de alunos mais velhos, apresentam grandes nomes como Martin Luther King e Nelson Mandela.

Outra atividade proposta é o "Rolezinho Literário", uma competição de quem lê mais.

Outra atividade proposta é o "Rolezinho Literário", uma competição de quem lê mais.

A outra perspectiva é da fantasia. “A gente entende que para sonhar alto você tem que explorar a sua imaginação. Porque às vezes a realidade é tão dura que não permite sonhar”, relata Mariana. Tendo isso em mente, a arte é usada como forma de estimular a criatividade e ampliar repertórios. Os alunos conhecem artistas como Dali, Basquiat, Frida Kahlo e Van-gogh. Leem sobre eles, pintam versões de quadros famosos e criam suas próprias. “A gente tem que desconstruir aquela ideia de uma educação tradicional que é muito desconectada do aluno”, conclui Juliana Borenstein. Os alunos analisam, investigam, problematizam, “constroem juntos o conhecimento”.

Além das aulas do programa de educação, o Reação também oferece um programa de bolsas e outro de entrada no mercado de trabalho. Aqueles que são presentes e se destacam recebem a oportunidade de estudar em diversas instituições privadas da cidade, entre cursos de línguas, escolas e universidades. Os alunos bolsistas são acompanhados de perto com entregas e metas que precisam atingir para manterem o benefício. Já o “Reação Conecta”, diz Juliana: “É uma resposta para toda essa angústia do jovem que não sabe para onde ir e precisa entrar no mercado de trabalho”. O programa integra empresas com vagas abertas e alunos interessados, além de oferecer cursos e oficinas de capacitação. 

“A gente trabalha o sonho da construção de uma sociedade"
Mariana Barbosa

Programa Olímpico

Entre os vários jovens que passam pelo instituto, alguns se dedicam ao alto rendimento. Esses recebem o apoio de diversos profissionais nas áreas de psicologia, nutrição, fisioterapia e preparação física, que dão suporte aos treinamentos diários. Rafaela Silva é uma das grandes referências. Ela entrou no Reação com 8 anos e treinava no polo da Cidade de Deus. Em 2016, na vila olimpica, a menos de dois quilômetros de sua casa, Rafaela se tornou a primeira e única campeã olímpica da arte-marcial no Brasil. Hoje, o programa inteiro contempla mais de 200 atletas. Um deles é Gabriel Falcão, com uma carreira de destaque e apenas 20 anos.

“Eu já nasci dentro do tatame”, diz ele. Gabriel começou no judô, incentivado pelo pai, com 3 anos. Eles moravam em Cachoeira de Macacu, um município do interior do Rio. No começo, Gabriel ia e voltava da capital duas vezes por semana para treinar. A coisa começou a ficar séria quando ele se mudou, junto da família, para ficar mais perto dos seus objetivos. Falcão se dedica ao judô de segunda a sábado, de manhã musculação, a tarde treino técnico e a noite, “randori”, o treino de luta. “É uma parada que você tem que querer de verdade. Se não, vai faltando detalhe e os detalhes que fazem a diferença.” 

A disciplina permitiu que ele conquistasse diversos títulos. Falcão, no ano passado, esteve no pódio do maior campeonato que havia participado. O torneio aconteceu no Chile. Lá a delegação ficou hospedada na vila olímpica, junto dos maiores atletas do mundo, nas mais diferentes modalidades. Ao lado dele estavam grandes referências. Falcão ficou impressionado com a estrutura do evento. Mesmo sendo pouco experiente, seu comprometimento lhe trouxe a sua maior conquista até então: o ouro nos Jogos pan-americanos. É claro que os lutadores dependem dos resultados, mas Falcão insiste que o que fica pra vida é “a disciplina, o companheirismo e o respeito aos mais velhos”.

Além do tatame

As aulas e treinos são norteadas pelos valores do Bushido (Código do Samurai). São eles: coragem, humildade, responsabilidade, respeito, superação e solidariedade. Através desses princípios e dos mais diversos programas, o Instituto Reação acompanha os seus alunos com a intenção de expandir as possibilidades da vida de cada um. Como conta Leonardo: “Aqui a gente aprende que a gente é capaz”. Hoje, com 20 anos de casa, ele é professor e melhor reconhecido por “Sensei Leozinho”. “Com certeza a minha faixa preta fora do tatame foi o diploma.” Com ajuda do programa de bolsas, Leonardo se formou em Educação Física. Ele foi o primeiro da família a ter uma faculdade. “Até cheguei a chorar um pouquinho, perdi a postura de cria.” Brinca, ao contar sobre o dia da sua colação de grau.

Para o futuro, Leonardo pretende ajudar cada vez mais crianças a alcançarem seus sonhos. “É um dever meu agora, transmitir todo esse conhecimento que eu recebi. Quanto mais a gente passa adiante o que foi bom para a gente, nos tornamos maiores.”

E para aqueles que pretendem começar a praticar judô através do Reação, existem três períodos de entrada: no mês de Março, Maio e Agosto. As famílias devem procurar a secretaria do polo desejado, colocar o nome na lista de espera, e no período de matrícula, os nomes são chamados a depender do número de vagas.

Léo é campeão brasileiro de judô

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