O reencantamento do mundo

Sob o legado de Conceição Evaristo, a 15ª edição da Festa Literária das Periferias prova que utopias improváveis nascem onde o mundo decide olhar

No centro de Madureira, perto do Mercadão, na empena central, uma frase pairou como uma espécie de bússola poética: “Ideias para reencantar o mundo.” Em sua 15° edição, a Festa Literária das Periferias reafirmou um compromisso que nunca coube apenas no papel: transformar palavra em ponte, afeto em política e periferia em centro. O tema deste ano, “Ideias para reencantar o mundo”, convoca o público a imaginar futuros improváveis, guiados por legados que atravessam séculos, mares e fronteiras. 

A música do carro de som vem de longe. Primeiro é um grave insistente, com um estouro, depois um tambor em ritmo de funk que se aproxima como quem pede passagem. Madureira acorda cedo, mas a Flup desperta o bairro de um jeito próprio: é um refrão marcante, uma batida dançante e um carro de som. “Sente a pulsação e vem com o coração!”

A programação celebrou a influência do Caribe e de toda a diáspora, sua música, sua poesia, suas utopias improváveis: aquelas que, mesmo nascendo em ilhas consideradas “insignificantes” pela geopolítica mundial, moldaram séculos de pensamento crítico. Soundsystems, ritmos populares, vozes amplificadas, oralidade e ancestralidade: tudo vibra junto!

No centro dessa festa, uma palavra fundamental: Escrevivência. A homenageada do ano, Conceição Evaristo, escreve como quem respira e resiste, suas histórias brotam da lama como o mangue que insiste em viver, mesmo quando o mundo tenta enterrá-lo. Mas, na Flup é mais que uma homenagem. É invenção. Em meio ao caos de um escritório (tarefas que se acumulam, prazos que deslizam, reuniões que se estendem além do previsto) opera silenciosamente um festival com mais de 14 edições. É ali, entre papéis, cabos, telas abertas e um fluxo contínuo de ideias, que a Festa Literária das Periferias se organiza. No coração do Rio de Janeiro, em uma sala na Cinelândia, mais de 20 pessoas costuram diariamente um projeto que há muito ultrapassou os limites da literatura e se tornou uma forma de existir no mundo. A Flup ensina, sobretudo, a confiar no acaso.

Essa rotina intensa, que se repete desde o início do ano, prepara o terreno para algo que só se revela por completo quando chega às ruas. E é justamente no espaço público, nas grandes circulações, que a divulgação da Flup ganha corpo. Algo que Juliane Dantas, produtora de comunicação, conhece de dentro.

Hoje, ela divide seu tempo entre a Flup e o trabalho de produtora de casting para uma agência de São Paulo, mas é na experiência de rua que encontra o pulso do festival. Perguntei a ela como funciona essa distribuição tão marcante da Flup: lambes, cartazes, busdoors, paredes inteiras comprometidas com o reencantamento do mundo, ideia central do festival deste ano. É acaso? É estratégia? É a aposta de que alguém, no caminho para o trabalho, encontre ali um respiro?

É nesse entremeio, entre o trabalho hiper planejado e o que escapa ao planejamento, que a Flup cresce. Entre a mensagem que se espalha no centro e a pergunta tímida que chega pelo direct do instagram. Entre o lambe colado no poste e o salto imaginativo que o transforma em convite. É justamente nas ruas de Madureira que esse convite se materializa com mais força, este ano, a Flup foi realizada no Viaduto de Madureira e proximidades, como a sede da CUFA e o estabelecimento Zê Êne, pela primeira vez.

O acaso como metodologia

Júlio Ludemir, idealizador e curador,  fala da Flup como quem narra um romance que ainda está sendo escrito. A história de Julio também se aproxima da história do próprio festival. Ligado à literatura, com nove livros publicados, após largar o cargo de Secretário de Cultura de Nova Iguaçu, ele encontroua nas periferias do Rio a matéria-prima da Flup. Foi em Nova Iguaçu, sua cidade, trabalhando com jovens do ensino médio que frequentavam a biblioteca da Casa de Cultura Sylvio Monteiro, que Julio percebeu algo fundamental. “Estava surgindo um novo tipo de leitor.”

Em sua fala, tudo parece casual, mas jamais é aleatório ou sem sentido. Há sempre um encontro, um desvio, uma contingência que acaba apontando o caminho. Não tem erro. “O acaso opera sempre para nos proteger”, diz. Ele  dá o exemplo do ano passado, que iria ser o tema deste ano. Só que duas coisas aconteceram: “A necessidade de dialogar com o G20 e a leitura, de novo protegida pelo acaso, da obra da Beatriz Nascimento. Isso nos levou à Conceição, ao feminismo de terreiro. Não é um negócio que chega assim do nada.” 

Esse gesto de seguir o tempo, de ouvir as urgências, de olhar para onde ninguém está olhando marca toda a história da Flup. Em 2014, quando ainda dialogavam com a Copa do Mundo, a equipe descobriu o Poetry Slam — evento artístico competitivo e performático onde poetas apresentam poesias autorais, faladas e com tempo limitado, para um público que atua como júri — em São Paulo. Levou para o festival. E, sem que ninguém planejasse, aquela febre de poesia falada passa a ocupar metade da programação por uma década.

O Slam se tornou uma espécie de espinha dorsal da Flup: um espaço onde voz, corpo, ritmo e política se fundem. Onde jovens, muitos deles negras e negros, escrevem e performam suas próprias Escrevivência — isso mesmo, com E maiúsculo, conceito criado por Conceição Evaristo e que ela aprofunda em seu livro Escrevivência: a escrita de nós — diante de um público que entende, no corpo, a potência da palavra falada. Se a Flup é reencantamento, o Slam é seu feitiço mais imediato.

Ideias para reencantar o mundo

A frase que guia esta edição nasceu no ano anterior, durante uma fala de Sueli Carneiro em um episódio ao vivo do Angu de Grilo, podcast de jornalistas criado por mãe e filha, Flávia Oliveira e Isabela Reis, no Circo Voador. Gente saindo pelo ladrão — como Júlio descreve — e, no meio daquele calor humano, Sueli solta a frase que acende tudo. “Ela falou de ideias para reencantar o mundo”, lembra. 

Toda a referência dela era o combate vitorioso que a juventude fez à ditadura. Hoje vivemos tempos desesperançados.” Segundo ele, no show da Lady Gaga, cada pessoa em si um discurso político, uma prática de liberdade, libertária, libertadora. Ele acredita que a cultura ainda é um campo instigador de sonhos, a partir do qual você produz narrativas transformadoras do mundo.

Julio então desenvolve uma imagem poderosa do Caribe: como um conjunto de ilhas consideradas irrelevantes conseguiu produzir Franz Fanon - psiquiatra e filósofo franco-martinicano cuja obra explorou o impacto psicológico do colonialismo e a necessidade da descolonização violenta para a libertação dos povos oprimidos - e utopias que moldaram séculos de lutas anticoloniais e horizontes políticos?

“A Martinica é um nada”, diz ele. “Mas dali veio o Césaire. Cuba é menor que Pernambuco, mas pautou 60 anos. O Caribe produz utopias improváveis.” E é dessa improbabilidade que nasce o reencantamento: se utopias nasceram ali, podem nascer aqui também.

Fortalecer a marca e celebrar a riqueza

A comunicação da FLUP opera entre o planejamento e o acaso. No entanto, o trabalho é meticuloso e profundamente conectado ao território. Juliane Dantas, produtora de conteúdo de comunicação, responde com a clareza de quem acompanha esse processo: “Rola um planejamento antecipado para onde essas mídias vão ser distribuídas, dependendo do local escolhido pela Flup. E aí essa veiculação além de comunicar a periferia tem que comunicar todos os tipos de público.” Ela explica que o objetivo é que a Flup esteja onde as pessoas estão: nos shoppings, na Lapa, nos pontos de maior fluxo, nos trajetos cotidianos. “É para que as pessoas também entendam A Flup como lazer, por conta dos shows”, completa.

Teresa Dantas, Coordenadora de Comunicação da Festa Literária das Periferias (desde 2022), detalha a complexidade de um planejamento que é refeito a cada edição, dependendo do local. Comunicar a Flup é comunicar um "volume muito grande de atividade" que envolve autores, lançamentos, Slam, batalha de passinho, batalha de rima, vogue e até um jogo de queimado. 

A programação da Flup, que se estendeu de 19 a 30 de novembro, ultrapassou o universo dos livros ao incluir uma importante Mostra de Filmes do aclamado cineasta britânico Steve McQueen. Vencedor do Oscar por 12 Anos de Escravidão e conhecido por obras que exploram a resistência negra e as dinâmicas de poder (Small Axe, Fome), McQueen se alinha perfeitamente ao tema da festa, trazendo para Madureira uma dimensão visual e crítica sobre a diáspora, a luta anticolonial e as utopias de liberdade. Sua presença, ao lado de grandes autores, como Ana Maria Gonçalves e a homenageada Conceição Evaristo, sublinha o poder da arte, em suas diversas formas, como ferramenta de reencantamento e transformação social.

Teresa Dantas reforça a importância de comunicar à Madureira, mas destaca o propósito maior do tema "Ideias para Reencantar o Mundo" como uma resposta ao contexto sociopolítico. "Diante de ideologias de extrema direita, ideologias individualistas muito fortes ganhando espaço a gente percebe que o que encanta o coração das pessoas para esse tipo de ideologia é mesmo é o desencanto”, diz. Então, ao ouvir Sueli Carneiro na Flup de 2024, a equipe de curadoria e as coordenações internas perceberam que essa Flup tinha que ser uma Flup de reconexão com o encantamento, com o reencantamento com tudo aquilo que faz transformar a vida num bem viver.

A coordenadora de comunicação também reconhece um desafio crucial para o futuro do festival, dialogar mais com a juventude: "A gente percebe que o nosso público majoritariamente é um público mais adulto. E a gente tá fazendo um trabalho para dialogar mais com os mais jovens.” Teresa afirma que é um passo que a eles estão dando agora “Nos primeiros passinhos dessa implementação que a gente ainda vai descobrindo como é que vai fazer. E vai querendo aprender justamente com essas novas gerações."

Madureira entre a batucada e utopia

A escolha do bairro não é aleatória. Madureira é um centro cultural, comercial e simbólico. É lugar de fluxo, de corpo, de som, de música. É território que carrega dinastias do samba: Portela, Império Serrano. E, é também onde o Baile Charme escreve sua própria história de pertencimento negro. Mas será que uma pessoa de Madureira vai saber quem é? Julio não acredita que a periferia tenha uma carência de educação. “Madureira é a segunda maior economia do estado, é um grande centro cultural. Não é uma negritude associada à pobreza. Existe uma mobilidade social nos próprios territórios” diz. 

A fala dele desloca o eixo do olhar. Não se trata de levar cultura para a periferia, mas de reconhecer que ela já pulsa ali, desde sempre. Madureira não é receptora da Flup, Madureira é potência que devolve a Flup um sentido de pertencimento e urgência.“Onde está esse público que mudou a universidade brasileira?”, pergunta. “Está na Zona Sul? Não. Está em Nova Iguaçu, em Irajá, em Madureira.”

A festa acontece nesses territórios porque são eles que, há anos, empurram o país para frente. Em uma das reflexões mais bonitas da entrevista, Júlio fala da juventude e da impossibilidade de mobilizá-la hoje com a velha política: “Se eu te chamasse para um comício, isso não ia te entusiasmar. No campo político, a gente não consegue mais entusiasmar principalmente aquele grande condutor de utopias que é a juventude.” Em meio ao diálogo, completa: “Não sou eu que preservo e faço um sonho de liberdade, de transformação do mundo”, propondo pensar uma perspectiva de futuro a partir do olhar da nova geração. 

Ele lembra da Cinelândia no dia da vitória de Lula: abraços, choros, a sensação de ter sobrevivido. Uma política do corpo, não do palanque. E é por isso que a Flup aposta nas atrações musicais como forma de reencantamento: Luedji Luna, Mano Brown, Jonathan Ferr — artistas que conversam com várias gerações.“A cultura ainda tem esse poder de aglutinador e difusor de utopias”, diz.

Estrelas e novas constelações: reencantar é escutar

Ao falar da curadoria musical, Júlio reconhece um desafio: equilibrar referências de gerações diferentes. Ao ir no Afropunk - plataforma global de celebração e resistência que amplifica as vozes e a estética da diáspora negra através de música, arte e moda, promovendo um espaço de pertencimento e empoderamento - Julio não conhecia nenhuma das atrações musicais presentes no festival que aconteceu em Outubro deste ano no Terreirão do Samba, no Rio de Janeiro. “A cena do pagode baiano, o Kanalha, as meninas que eu não conhecia nenhuma”, ele se emburra. Quando eu cito alguns outros nomes que esteve presente no festival, completa “totalmente fora do meu repertório.” 

Ele cita uma frase que ouviu recentemente: “O Leall teria mais público que o Mano Brown em Madureira” e conclui “Talvez seja hora de criar nossas próprias estrelas.” Essa juventude, especialmente a juventude negra, escolarizada pelas políticas públicas dos anos 2000, mudou o país e mudou a Flup. Da mesma forma que a batalha do passinho, que ele ajudou a estruturar, tomou o Parque Madureira com 50 mil pessoas em 2013, a Festa Literária das Periferias hoje toma o bairro com uma força que combina memória, política, estética e futuro. Tudo isso nasce de uma convicção. “A periferia tem cultura. Às vezes, com a nossa gana de mudar de vida, a gente esquece de olhar para dentro e ver que podemos transformar o lugar onde estamos", diz.

E talvez seja isso que a Flup mais oferece: escuta. Escutar a poesia falada no Slam, escutar a batida que vem do Caribe, escutar Conceição e suas Escrevivência, escutar o próprio território, escutar a juventude que faz da cultura uma política do corpo, escutar o acaso que, como diz Julio, sempre opera para proteger. O reencantamento começa assim: no som que vem de longe, mas também no que está aqui, no agora, no chão do seu solo. Um mundo se reconstrói quando alguém, em meio ao barulho da vida corrida, olha em volta e pensa. “É daqui que o futuro nasce.”