O combate silencioso da fé no cotidiano brasileiro
No peito patuá, arruda e guiné: o poder dos rituais religiosos que sustentam a vida diária com equilíbrio e proteção
Por Vitória Viegas
Uma pesquisa da Folha de São Paulo afirma que quanto mais pobre um país, mais ele tende a ser religioso. Não é uma relação de causa e efeito simples, mas os países mais pobres tendem a ter uma população que encontra na religião um espaço de conforto. Enquanto as atenções estão voltadas para discussões mais barulhentas, existe um combate silencioso acontecendo longe da mídia, o combate da sobrevivência emocional diária. Ele não ocupa manchetes e não aparece nos debates que falam sobre religião como se fosse apenas um bloco político ou um voto a ser disputado, aparece nos pequenos gestos diários que sustentam as pessoas em um país cercado por desigualdade, medo e incertezas.
Em um país que tem uma santa como padroeira, onde o primeiro gole de cerveja é dedicado ao santo e Nossa Senhora vira “Nazinha”, a fé atravessa o cotidiano antes mesmo que os indivíduos percebam. Mas essa presença não é apenas tradição: é sintoma. No Brasil, onde até a esperança parece precisar de reforço diário, os versos “Andá com fé eu vou / que a fé não costuma faiá”, de Gilberto Gil, soam menos como poesia e mais como condição de sobrevivência. Em um país onde a vida custa caro, a violência é rotina e o futuro é instável, a espiritualidade se torna refúgio emocional diante de uma realidade que nem sempre oferece amparo. Enquanto o mundo exige pressa, produtividade e autossuficiência, são os gestos mínimos que sustentam quem vive sob constante tensão. Os corpos seguem, então, no automático, mas as mentes precisam de um reforço, e é aí que a fé se manifesta com tanta força no cotidiano atual das pessoas.
Foto: Victor Baetas
Quando a fé nasce da dor
Foto: Reprodução/Internet
Para Brena Gomes, estudante de marketing e umbandista, a força surgiu em um momento extremo, uma tentativa de suicídio que teve a fé como primeira forma de apoio psicológico. “A Umbanda entrou no momento mais escuro da minha vida. Nasceu da dor. Eu sempre ouvi falar de fé, frequentei várias religiões, mas nunca me senti de fato pertencente. Via as pessoas acreditando com tanta certeza e me perguntava como elas conseguiam. Então a vida me empurrou para o limite e não sobrou mais nada além de buscar algo maior. Foi na dor que a fé virou necessidade, não teoria”.
Quando o Estado falha, quando o dinheiro não fecha, quando a insegurança se espalha e o estado psicológico é fortemente afetado, a espiritualidade aparece como gesto de proteção e tentativa de equilíbrio. Não é fuga da realidade, é a tentativa de sobrevivência. O dia a dia se torna então um momento de apreciar a espiritualidade no mais simples gesto. “A minha fé está presente nas coisas pequenas: observar o vento, o movimento das pessoas na rua, a alegria de uma criança. Coisas que eu antes ignorava porque estava ocupada demais tentando sobreviver. Hoje eu enxergo beleza e sentido no simples. Fé é o que me permite estar aqui para notar essas coisas ", conta a jovem.
No cotidiano de Brena, a fé não se limita aos rituais do terreiro, aparece também no corpo e nos objetos que a acompanham. As marcas espirituais não são meros adornos, mas extensões da própria história. Em um país onde religiões de matriz africana ainda enfrentam estigma, carregar símbolos de Umbanda exige coragem, afirmação e afeto. Para ela, cada signo é uma forma de manter por perto aquilo que a sustentou psicologicamente nos momentos mais difíceis. Esses elementos funcionam como dispositivos de memória e proteção, lembrando que a fé não age apenas no invisível, age também na pele, pesa no bolso, e acompanha o caminho diário. É nesse contexto que ela diz: “Tenho cinco tatuagens e uma guia. Uma das tattoos é um Preto Velho, a representação do acolhimento que eu recebi quando estava destruída. Ele me ensinou sobre amor e dignidade. A guia eu uso todos os dias. Ela é proteção e confirmação do caminho que escolhi”.
Foto: Reprodução/Internet
Fica evidente que, para ela, fé e sobrevivência caminham juntas. Seus símbolos espirituais não são apenas objetos devocionais: são instrumentos de construção subjetiva, de amparo emocional e de afirmação de identidade. A espiritualidade, nesse cenário, é ferramenta de vida. É o que resta quando tudo ao redor parece ruir. É o que impede que o indivíduo seja engolido pela dureza do mundo. Para muitos brasileiros, ter fé não é escolha: é resistência.
Foto: Vitória Viegas
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A herança emocional da religiosidade
A família é um dos principais pilares na construção social dos cidadãos brasileiros, e na construção da fé não seria diferente. A religiosidade é vista como um dos pilares para a construção do indivíduo, ainda mais do catolicismo, religião que por motivos históricos, ainda é a base da sociedade. Na vivência de Carla Ferreira, bacharel em Direito e Católica, a fé nasceu do afeto familiar diário: “Minha mãe sempre foi muito católica, devota de Nossa Senhora, e desde muito cedo me mostrou o caminho da fé. Então, como toda criança criada em um lar católico, fui batizada, nos primeiros meses de vida e fiz catecismo”.
O catolicismo chega, muitas vezes, como tradição para as crianças e os rituais, como o batismo, não funcionam apenas como cerimônias, produzem pertencimento e moldam valores de uma vida e de um futuro. No Brasil a religiosidade transmitida por mulheres, muitas vezes sobrecarregadas do trabalho, funciona como um carinho e uma forma de organizar a vida emocional. Mas, ainda que o primeiro contato seja de forma afetiva, a fé é sempre requerida nos momentos de dificuldade, se tornando um apoio emocional.
Relembra a bacharel em Direito: “Por volta de 2012, minha mãe sofreu um acidente de trabalho grave que resultou em um traumatismo craniano. Aos poucos as coisas foram melhorando e eu sempre rezando e pedindo para que ela se curasse. Três meses depois, ela estava curada e sem nenhuma sequela. Uma pessoa próxima sempre me disse a seguinte frase: “Pede a mãe que o filho dá”, e eu tenho certeza que o que a salvou foi a fé que sempre tivemos”.
Foto: Severino Silva
O relato de Carla demonstra um problema estrutural brasileiro: a vulnerabilidade das mulheres trabalhadoras. O acidente revela a falta de suporte institucional. É nesse limbo que a fé antes vista como um afeto, se torna um mecanismo de esperança e sobrevivência. A figura materna ocupa um lugar central na experiência católica e pode ajudar a explicar porque a imagem de Nossa Senhora funciona como a representação de uma mãe presente. “Nossa Senhora que intercedeu no momento em que minha mãe mais precisou intercedeu pela minha mãe junto a Deus”, disse ,Carla ao lembrar da cura da mãe.
Mais do que um símbolo, ela se torna uma ponte emocional, entre o humano e o sagrado, ela oferece cura simbólica onde o Estado falha, fornece proteção espiritual onde o trabalho não garante segurança física, e fortalece vínculos afetivos onde a vida cotidiana desgasta. A devoção a Nossa Senhora, tão presente no imaginário brasileiro, expressa o ditado popular mencionado pela entrevistada: Nossa Senhora intercepta as orações para que cheguem até Jesus. Maria é aquela que intercede porque compreende.
No catolicismo, diferente das religiões de matriz africana frequentemente alvo de intolerância, a fé se materializa mais fortemente em símbolos do cotidiano que carregam afeto e proteção. Esses símbolos funcionam como extensões emocionais, como se a presença do sagrado precisasse estar ao alcance da mão para também estar ao alcance da oração e realização. Após a recuperação da mãe, Carla viu a fé se tornar mais presente no cotidiano: “No meu cordão tem um anjo da guarda que minha mãe me deu há muitos anos. Além de algumas imagens de Nossa Senhora no quarto e nos carros, carrego terço e oração do anjo da guarda sempre na bolsa. Acredito que ter esses objetos por perto potencializam ainda mais minha fé durante as orações, por exemplo”.
Foto: Reprodução/ Internet
A fé como estrutura emocional
Foto: Severino Silva
“Sábio é quem acredita que o saber não é hegemônico”, conta o psicólogo e teólogo Uendel Pimentel. Para ele, a psicologia e a fé não se opõem. A psicologia funciona como uma forma de auxiliar o olhar para o mundo e a religião é um dos aspectos mais estruturantes dos seres humanos, agindo como fonte de sentido. Em uma sociedade que vive a ansiedade da produtividade, as doenças psicológicas se tornam cada vez mais presentes. É daí que a fé surge como um apoio emocional para a sobrevivência dos indivíduos.
A formação em teologia, conta Uendel, não surgiu como ruptura com a ciência, mas como tentativa de compreender aquilo que move as pessoas em seus momentos de dor, busca e transcendência. O olhar teológico aumenta o olhar psicológico, permitindo que as espiritualidades sejam vistas como dimensões legítimas da vida psíquica. A fé, nesse sentido, não é um acessório, é uma estrutura. “Geralmente, pacientes que possuem um vínculo religioso conseguem enfrentar situações mais difíceis no cotidiano, em função, de acreditar nesse poder transcendente”, expressa o psicólogo. As expressões da fé no cotidiano, para além dos espaços físicos como igreja ou terreiros, atuam como um processo emocional, o ritual é um ponto de apoio em meio ao caos.
A psicologia entende a família como o primeiro vínculo social capaz de moldar os indivíduos, a fé muitas vezes é uma herança familiar. Essa herança emocional, que pode até ser uma doutrina negativa, antecede qualquer explicação racional, vinculada a costumes cotidianos como acender uma vela, rezar um terço ou até em acessórios. Pequenos rituais vistos e repetidos desde a infância criam uma sensação de proteção e pertencimento que guiam os indivíduos por toda uma vida. É por isso que, mesmo na vida adulta, muitos encontram na fé um retorno simbólico ao primeiro lugar de afeto que conheceram: o lar.
As demonstrações de fé atuam diante da sociedade também como uma maneira de resistência. “Eu acho que a fé, ao mesmo tempo que ela é resistência, ela é luta e ela nos ajuda emocionalmente.” Para ele, resistência não é apenas espiritual, mas política e emocional.
A espiritualidade cria então uma base interna que sustenta os indivíduos frente às desigualdades e sensação de desamparo social, servindo de apoio emocional e social. Entende-se também uma relação coletiva, ainda que os rituais de fé no dia a dia sejam individuais, a fé no Brasil é plural, cria laços, constrói pertencimentos e se torna resistência social para grupos minoritários como forma de manterem a cultura viva. “Eu acho que a minha experiência de fé me faz compreender que eu não sou sozinho no mundo e que o mundo é coletivo. Ela me empodera, ela me vocaciona, ela me coloca na vida como alguém que luta por um propósito de justiça, de paz, de alegria pra todos.”
Sendo assim, a religião se torna mais do que conforto é também uma forma de enxergar o outro, uma força que transforma sofrimento em mobilização. A fé, então, é uma linguagem de resistência e solidariedade em um país que frequentemente nega ambos.
Foto: Reprodução/Internet
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