O analfabetismo invisível

Sem o domínio de ferramentas digitais, idosos enfrentam uma nova forma de exclusão na sociedade contemporânea

Em 2021, a Agência de Notícias CEUB publicou uma reportagem com depoimentos de adultos e idosos analfabetos. Entre eles, estava o do pedreiro Paulo de Sousa, de 57 anos, que estava em processo de alfabetização. Antes, se sentia à margem da sociedade — "não dava conta nem de pegar um ônibus", declarou. Hoje, muitos idosos passam por uma situação de exclusão parecida, não por não saberem ler, mas por terem baixo letramento digital, isto é, não estarem familiarizados com o mundo informatizado. Em um cotidiano cada vez mais mediado pela tecnologia — com restaurantes que só oferecem cardápio por QR Code e bancos que funcionam 100% online — a dificuldade de acesso se intensifica. Uma pesquisa de 2020, realizada pelo Sesc São Paulo e pela Fundação Perseu Abramo, mostrou que apenas 19% da terceira idade faz uso efetivo da internet. Segundo o levantamento, 72% nunca utilizou um aplicativo e 62% jamais acessou redes sociais.

Chefe de cartório no TRE/RJ Fátima Pedrete, que lida rotineiramente de forma direta com o público idoso, percebe que a maior parte desse grupo de fato é alheio à tecnologia. Ela relata que instituições financeiras e órgãos públicos encaminham idosos ao cartório para coleta de dados biométricos, mas, invariavelmente, eles não sabem o que isso significa ou qual a finalidade do procedimento: “Chegam ao balcão de atendimento apenas dizendo que mandaram ir ali para resolver o título de eleitor ou que precisavam de um empréstimo e falaram que tínhamos que tirar uma foto para liberar”.

Para Fátima, a suspensão dos serviços presenciais no cartório durante a pandemia de COVID-19 evidenciou ainda mais esse distanciamento. Para conseguir atendimento, havia a exigência de realizar todo o processo online, desde o preenchimento de formulários, envio de documentos e selfies em formatos específicos, até o acompanhamento e impressão digital do título. “Consegue imaginar um parente mais velho seu fazendo isso?”, questiona. Segundo a servidora, a tecnologia foi eficiente para quem já tinha familiaridade com ela, mas inacessível para a maioria dos idosos. Ela avalia que a experiência demonstrou a urgência de políticas públicas e ações sociais que os capacitem para o uso de tecnologias básicas. No entanto, essa é uma demanda ainda pouco atendida pela sociedade.

“A não inserção da terceira idade no mundo da tecnologia pode gerar impactos sociais e emocionais significativos”, afirma a psicóloga pós-graduanda em gerontologia Bianca Forte. De acordo com ela, essa fronteira social pode acabar gerando sentimentos negativos como ansiedade, estresse e solidão. Além disso, reduz a qualidade de vida e limita as oportunidades e experiências das pessoas mais velhas. Essa realidade se reflete no dia a dia de Conceição Souza, de 78 anos, que admitiu ter vergonha por não saber lidar com certos aplicativos e funções no celular: “Às vezes, vou pedir ajuda para o porteiro e penso que ele deve saber menos do que eu. O que acontece? Ele sabe muito mais. Rapidinho resolve. Eu fico envergonhada… juro que fico envergonhada".

Dona Lúcia aprendeu a consertar seus aparelhos domésticos sozinha a partir da internet. Imagem: Acervo pessoal

Dona Lúcia aprendeu a consertar seus aparelhos domésticos sozinha a partir da internet. Imagem: Acervo pessoal

Daí a importância de capacitar a terceira idade para o uso dos recursos digitais. Bianca destaca os benefícios desse processo: “A inclusão digital contribui para a conexão social, ajudando os idosos a se conectar com familiares e amigos de maneira diferente, reduzindo a solidão e o isolamento. Também promove o estímulo mental, já que a tecnologia é uma janela para aprender novas modalidades, como jogos, atividades online e até mesmo facilitar o acesso ao atendimento psicológico virtual”.

Maria José de Lima, de 73 anos, conta que tem dificuldades com o uso do digital, mas nem por isso deixa de tentar. Mesmo com os desafios, ela encontrou no ambiente virtual novas formas de lazer, interação e exercício cognitivo. “Eu gosto muito de conversar no zap (nome popular do aplicativo WhatsApp). Passo o dia inteiro no Instagram, principalmente. Faço minhas coisinhas e vou para o celular ver as fofocas dos artistas. Também adoro fazer caça-palavras. Minha neta que colocou para mim.”

A psicóloga ainda acrescenta que a autonomia proporcionada pelo uso das ferramentas digitais também é um ganho significativo: “Facilita o processo de independência, permitindo que eles realizem tarefas de forma mais fácil e eficaz, o que melhora sua autoestima e senso de utilidade no dia-a-dia”. Um exemplo disso é o caso de Lúcia Maria Rodrigues, de 78 anos. Atualmente, por conta do acesso à internet, ela consegue procurar tutoriais e consertar seus eletrodomésticos de forma independente. “Hoje, consertei minha batedeira”, diz. “A internet é boa, pena que às vezes as pessoas usam para coisas ruins.”

Suporte da família faz a diferença

Imagem: congerdesign / Pixabay

Imagem: congerdesign / Pixabay

Para que o percurso de aprendizado seja possível, muitas vezes o apoio familiar tem papel crucial. Antônio José de Almeida, de 73 anos, conta com a ajuda da filha Bianca Almeida para lidar com as novas tecnologias. “Esses aplicativos não são intuitivos para quem não está acostumado com tecnologia, tem muita complicação”, apontou Antônio, que, no começo, resistiu, mas, depois, acabou cedendo por vontade de “ficar dentro das tecnologias do mundo moderno”.

De acordo com Bianca, houve dificuldade para começar a ajudar seu pai com o letramento digital, já que ele não tinha nenhuma familiaridade com as funções de aplicativos em geral. Porém, a aprendizagem fluiu quando ela começou a instruí-lo a focar em um ponto de cada vez, para que não ficasse confuso. Assim, evitou-se a sobrecarga de informações e seu pai conseguiu avançar gradualmente no uso do celular e do computador. Hoje, mais habituado às tecnologias, Antônio sente que a inclusão digital trouxe mais comodidade para sua vida, já que consegue usar aplicativos como o YouTube para  buscar sobre assuntos que o interessam e não precisa pegar filas para pagar contas: “Resolvo tudo rapidinho”.  No entanto, ele admitiu ainda ter medo de ser passado para trás: “Hoje em dia tem muito pilantra por aí, a gente fica assustado.”

Além dos filhos, muitos idosos também contam com a ajuda dos netos. É o caso de Nely Maccacchero, que, no estilo Glória Maria, não conta a idade para ninguém. Ela tem na neta, a designer Mariana Victer, de 23 anos, uma aliada para navegar pelo universo digital. “Acho que a maior dificuldade dela é saber o caminho das coisas”, explica Mariana. “Então, por exemplo, minha avó quer fazer um pix. Ela sabe que tem que abrir o aplicativo do banco para fazer o pix, mas e aí? Depois, onde clica? Porque são várias coisas, não é um clique só, tipo clicou e aconteceu." A jovem explica que certas coisas que para ela, que se considera nativa digital, são muito óbvias, para a avó, são complicadas. Nesse sentido, a paciência ao instruir é essencial. 

Mariana acrescentou que Nely mora sozinha, portanto, para ela ter independência é imprescindível: “Saber certas coisas ajuda no dia-a-dia. Hoje ela já consegue pagar no pix com mais facilidade e faz até brincadeiras, dizendo ‘era tão fácil, né?’. Minha avó é uma pessoa moderna. Ela está ciente da tecnologia, não é uma idosinha tão clássica e como qualquer um, ela quer participar.”

Bianca e seu pai, Antônio. Imagem: Acervo pessoal

Bianca e seu pai, Antônio. Imagem: Acervo pessoal

Cursos são alternativa

Imagem: nappy.co

Imagem: nappy.co

Outro caminho procurado por alguns idosos são cursos de informática. Entendendo o problema da exclusão digital na terceira idade, a Prefeitura do Rio de Janeiro oferece, por vezes, iniciativas pontuais para promover a inclusão digital. No último dia 26 de março, por exemplo, a Secretaria de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida realizou um curso de smartphone e aplicativos voltado para pessoas com 50 anos ou mais.

Além disso, o Projeto Casa de Convivência e Lazer para os Idosos da Prefeitura do Rio de Janeiro oferece aulas regulares de informática básica e mídias digitais. O projeto, destinado a pessoas independentes a partir dos 60 anos e em processo de envelhecimento a partir dos 50, promove atividades gratuitas com o objetivo de impactar positivamente a saúde física, mental e emocional dos seus frequentadores. É possível saber mais no site Carioca Digital.

Foi justamente para superar a vergonha e lidar melhor com o digital que Conceição, mencionada no início da reportagem, decidiu procurar uma formação. A idosa mora sozinha e seus filhos moram em localidades distantes. Ela recorreu ao curso gratuito de apropriação digital para aposentados, atividade de extensão oferecida pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Sintufrj) em parceria com o Laboratório de Informática para Educação (LIPE), também da UFRJ. As aulas são ministradas no Centro de Tecnologia (CT), na Ilha do Fundão e no Centro de Produção Multimídia (CPM), no Campus Praia Vermelha.

“Para mim, isso aqui (o computador) é muita coisa. Na minha época, era só tec tec tec, plim”, afirmou Conceição, imitando mexer em uma máquina de escrever. “Antes, eu nem sabia colocar o nome no celular, o teu celular no meu zap”, explicou, assumindo que não conseguia salvar o contato de outra pessoa em seu dispositivo sozinha. “Mas eu estou gostando. Pelo menos, alguma coisa está saindo. Muita coisa eu não sei mexer ainda. Hoje mesmo, a monitora me ensinou a colocar o nome no celular.” Ela salienta, porém, a relevância da perseverança no processo de aprendizado: “Eu comecei antes do COVID. Depois fui resolver outras coisas, mas voltei, porque é muito bom fazer curso. Na minha idade, tem que ser hoje, amanhã, amanhã, amanhã e assim vai”.

Gabrielle Soares, monitora bolsista do curso de apropriação digital do Sintufrj, considera a ausência de tecnologia no ambiente doméstico como o maior desafio dos alunos, que não conseguem treinar fora do curso: “Eles têm o celular, mas não têm computador em casa. Alguns ainda trabalham e então tem que equilibrar o aprendizado com o trabalho. Isso também é um desafio. Aí, a gente dá umas dicas, se tiver computador no trabalho, usa para treinar lá”.

Alunos e instrutores do curso de apropriação digital do Sintufrj em 2023. Reprodução: Sintufrj

Alunos e instrutores do curso de apropriação digital do Sintufrj em 2023. Reprodução: Sintufrj

Para ela, o método mais eficaz é guiar os idosos através da fala e do passo a passo, ao invés de simplesmente fazer para eles. Ela explicou, exemplificando, que “para ensinar eles a entrarem nas configurações, eu aponto o dedo, mas não aperto para eles. Além disso, vou explicando as funções de cada coisa, tipo, nessa lixeira estão as coisas que você apagou". Nesse processo, usar uma linguagem simples é fundamental.

Já para Juliano Tavares, dono da empresa JCT Informática, a barreira digital se fortalece por conta da lógica abstrata da tecnologia. Na visão dele, que costuma orientar pessoas idosas, muitas têm dificuldade de entender conceitos como “janelas”, “arquivos” e “pastas” virtuais pois não conseguem relacioná-los a objetos concretos do mundo físico, o que acaba gerando muitas dificuldades. “O idoso está muito ligado ao que é real. Então, quando você fala de abrir uma janela, para ele é difícil, porque não tem nada se mexendo de verdade”, declarou.

Juliano acredita que é importante usar comparações práticas para ajudar na compreensão: “Quando você vai explicar guardar um arquivo em uma pasta, tenta trazer para o idoso a imagem de um fichário, de uma gaveta. Ele escreve um texto, coloca numa pastinha, guarda na gaveta. Mesmo assim, a abstração ainda cria uma barreira, porque ele não está vendo arquivo nenhum”. Contudo, o empresário vê na popularização da inteligência artificial e em ferramentas mais intuitivas, como os assistentes de voz, um caminho promissor para incluir os mais velhos no mundo digital.

Apesar disso, é preciso prestar atenção no alerta da psicóloga Bianca Forte: “Como em qualquer outra idade, o contato com a tecnologia na velhice também gera efeitos negativos, principalmente se não for usada de maneira moderada e consciente. Os idosos podem ficar em uma posição vulnerável a fraudes e golpes, gerando sobrecarga de informações.” Ela ainda ressalta que eles podem ser vítimas das famosas fake news, o que pode causar confusão mental, sobretudo nessa faixa etária.

Para prevenir que isso aconteça, a profissional recomenda a instalação de recursos de segurança nos dispositivos utilizados pelos mais velhos, como bloqueadores de anúncios, mecanismos de privacidade e filtros contra conteúdos maliciosos. Além disso, ela destaca a importância de a família ou o tutor oferecer acompanhamento contínuo e apoio quando necessário, estabelecer limites saudáveis de uso, propor atividades práticas fora das telas e investir em psicoeducação, orientando os idosos sobre os riscos e benefícios do ambiente digital.