Hortas urbanas
e seus efeitos
Cultivo sustentável nas cidades oferece alternativas ao enfretamento da insegurança alimentar e desigualdades sociais
O cotidiano das cidades brasileiras é marcado por barracas e pequenos comércios oferecendo alimentos processados e ultraprocessados com valores reduzidos, uma solução prática para trabalhadores de baixa renda. Essas pessoas, que, além de não terem tempo para uma refeição completa, não têm dinheiro para comprar opções saudáveis ou razoavelmente nutritivas. Cenas onde a população apela para o ultraprocessado por falta de condições de se alimentar bem revelam mais do que a conveniência: expõem a desigualdade no acesso à alimentação no Brasil. Dados do módulo Segurança Alimentar da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, referente ao quarto trimestre de 2023, mostram que 27,6% dos domicílios do país convivem com algum grau de insegurança alimentar. Entre eles, 4,1% enfrentam o nível mais grave, totalizando 21,6 milhões de famílias sem acesso permanente à alimentação adequada. Nesse cenário, as hortas urbanas vêm crescendo como uma solução acessível para reduzir os efeitos da desigualdade alimentar.
Essa modalidade de agricultura, que cultiva hortaliças, frutas e verduras dentro do perímetro das cidades, pode ser instalada em terrenos públicos ou privados, ser comunitária ou doméstica, desde que respeite as legislações locais. Enquanto parte da população depende cada vez mais de alimentos ultraprocessados, frequentemente associados a problemas de saúde, as hortas urbanas emergem como uma resposta prática à falta de acesso a alimentos frescos.
Além de reforçar a segurança alimentar, elas também desafiam o modelo desigual que caracteriza o sistema de distribuição de alimentos no país. Porém, o combate à fome no Brasil ainda enfrenta obstáculos significativos. A desigualdade socioeconômica é uma das principais causas apontadas, mas, como destacou Fran Paula, engenheira agrônoma e mestre em saúde pública, não é o único fator. Segundo ela, o acesso a alimentos saudáveis também reflete as dinâmicas de segregação social e racial.
“Quanto mais saudável o alimento, mais distante ele está dos locais ocupados pela população preta. Na prática, não bastou segregar os corpos negros nas favelas e periferias, mas também distanciá-los de tudo que os mantém vivos”, afirmou a especialista num texto de grande repercussão publicado no site Fase.
Dados: IBGE/ PNAD | Gráfico: Julia dos Santos
Dados: IBGE/ PNAD | Gráfico: Julia dos Santos
O racismo ambiental e o racismo alimentar são fatores que influenciam ainda mais a desigualdade no acesso ao alimento. Segundo pesquisa promovida pelo Instituto Locomotiva em parceria com o Data Favela e a Central Única das Favelas (Cufa), 67% das pessoas presentes nas favelas são negras e pardas. No Rio de Janeiro é fácil observar que as favelas e regiões periféricas são menos favorecidas com “espaços verdes” e saneamento básico, por exemplo. As hortas urbanas, ainda que não resolvam sozinhas as desigualdades alimentares, são iniciativas que trazem alternativas viáveis, promovem o uso produtivo de espaços urbanos e ampliam o acesso a alimentos frescos para as populações mais vulneráveis. Um exemplo é o projeto sócio-ambiental Hortas Cariocas que existe desde 2006 na Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro (SMAC). O programa, que tem como finalidade condicionar uma alimentação melhor e criar postos de trabalho para a população das comunidades, já acumula diversas conquistas. “A gente conseguiu que a horta comunitária entrasse como uma ferramenta de educação ambiental e disseminar isso pelas comunidades”, diz Márcia Costa, diretora de educação ambiental na SMAC. Manguinhos, Cidade de Deus, Morro da Formiga, Complexo do Alemão e Morro do Faz Quem Quer são exemplos de comunidades atendidas pela iniciativa.
Horta Susana Naspolini em Realengo | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Horta Susana Naspolini em Realengo | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Pequenos cultivos da Horta Haroldo de Andrade | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Pequenos cultivos da Horta Haroldo de Andrade | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Trabalhadores na Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Trabalhadores na Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Plantação de mostarda na Horta Caminho do Partido | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Plantação de mostarda na Horta Caminho do Partido | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Algumas plantios na Horta Jardim Sulacap | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Algumas plantios na Horta Jardim Sulacap | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Outros trabalhadores na Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Outros trabalhadores na Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Horta Escolar com mural ao fundo | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Horta Escolar com mural ao fundo | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Manutenção da Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Manutenção da Horta da Maré | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Mais funcionários na Horta de Manguinhos | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Mais funcionários na Horta de Manguinhos | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Funcionária cuidando da Horta do Cajueiro | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
Funcionária cuidando da Horta do Cajueiro | Reprodução: Instagram Hortas Cariocas
O surgimento de uma horta do programa é uma demanda da própria população. “A Associação de Moradores local ou uma ONG dentro da comunidade observa um espaço que pode se tornar uma horta, vem aqui na prefeitura com o ofício e a gente vai lá ver se o espaço é adequado para receber”, explica Márcia. Os próprios moradores interessados recebem um curso de qualificação para trabalhar e desenvolver o programa, tornando-se responsáveis pela manutenção da horta, desde a plantação das sementes até a venda e distribuição das colheitas. Metade da produção vai para o consumo dos moradores e a outra metade será vendida por um preço acessível, a fim de completar a renda familiar desses horticultores. No início, esses funcionários recebem uma bolsa auxílio de 400 reais, mas o intuito é que, com tempo, eles consigam emancipação e se tornem autônomos: “A partir do momento em que o agricultor produz mais, ele vai melhorando sua condição e essa horta se emancipa”. A iniciativa da prefeitura já conquistou três reconhecimentos: Prêmio Empreendedor Sustentável (2015), menção honrosa no Pacto de Milão na categoria Produção Alimentar (2019), e a inclusão pela ONU na lista de ações essenciais para alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O programa Hortas Cariocas demonstra a importância de aproveitar espaços urbanos ociosos para promover segurança alimentar e inclusão social. Em 2022, estava presente em 56 pontos do Rio de Janeiro, 29 comunidades e 27 escolas municipais. O projeto não apenas reforçou a alimentação saudável, mas também destacou o potencial transformador de áreas subutilizadas. Foi a partir da necessidade de utilizar um espaço esquecido que a “Horta da Pedreira”, como o nome sugere, foi desenvolvida na encosta do morro da Nova Cintra, fundos de um condomínio de casas no bairro Catete, zona sul do Rio de Janeiro.
O projeto de caráter privado surgiu em 2020 como uma forma de ocupar aquele espaço que antes era intransitável, criado para barrar deslizamentos de pedras, terras e troncos de árvores na casa dos moradores. Com o aproveitamento do espaço de aproximadamente 30x15m, a horta emergiu em uma capa de terra sobre a pedra. “É um lugar que tem paisagem mutante, uma espécie de laboratório e recebemos umas espécies de plantas interessantes. Nós compartilhamos informações sobre a horta e se alguma rocha está perigosa”, informa Martha Niklaus, artista visual e uma das idealizadoras da Horta da Pedreira.
Entre os problemas enfrentados para a manutenção do projeto destacam-se a seca e a topografia. Antônio “Itiberê” de Andrade, artista e horticultor, explica: “Praticamente a cada um ano ou um ano e meio a gente refaz essas estruturas porque não tem uma superfície grande de terra”. Apesar do espaço improvável, a horta conta com grande variedade de alimentos: vagem, repolho, amora, capim-limão, abacaxi, banana, aipim, batata doce, alface, abóboras, acelga, manjericão, tomate cereja, erva cidreira, agrião e muitos outros. Como consequência, o espaço tornou-se quase que um ecossistema com plantas sempre surgindo e visita de animais silvestres. Os moradores do condomínio colaboram financeiramente para a existência da horta, pagando por mudas e sementes e o salário de Itiberê e seu ajudante, Hyildeblei Ferreira. Duas vezes por semana os dois trabalham no local e a colheita e distribuição dos alimentos ocorrem toda sexta-feira. A cada semana, sete casas recebem suas hortaliças e, no total, a produção é suficiente para atender 15 famílias, as dos moradores e dos funcionários, além de gerar impacto positivo na saúde e educação ambiental dos envolvidos.
“O que o espaço se transformou é gratificante. Ele além de ser essa coisa assim bonita, ele é prático, né? Ele te oferece mesmo. A pessoa pode estar se informando se têm algo para fazer um chá: se têm para insônia, dores, isso ou aquilo”, orgulha-se Itiberê que também é um educador ambiental por experiência. “Essa prática aqui cria uma cultura com pessoas envolvidas. Querendo ou não as pessoas recebem essas informações.” A horta não utiliza nenhum tipo de agrotóxico ou química nas plantações, as suas soluções para pragas ou plantas invasoras são cultivos estratégicos. Além disso, esses alimentos orgânicos surpreendem as famílias que comentam perceber como o sabor é diferente dos produtos que são encontrados nos mercados. Martha, que também é uma das moradoras que mais participam ativamente na manutenção da horta, como na montagem das bolsas de hortaliças dos moradores, compartilha: “Quando eu recebo, procuro fazer logo. É muito bom saber de onde veio e que não tem veneno”. Com uma colheita tão diversa, uma prática comum entre os moradores é a troca de receitas e ideias para novos pratos, já que muitas pessoas sequer conheciam os vegetais que recebiam.
Escadaria que leva à entrada da Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Escadaria que leva à entrada da Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Interior da Horta da Pedreira e prédios da região do Catete ao fundo | Foto: Julia dos Santos
Interior da Horta da Pedreira e prédios da região do Catete ao fundo | Foto: Julia dos Santos
Colheita da Horta da Pedreira: tomates cereja, pimentas, milhos, acelgas, alfaces e espinafres | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Colheita da Horta da Pedreira: tomates cereja, pimentas, milhos, acelgas, alfaces e espinafres | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Algumas das plantações da Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Algumas das plantações da Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Preparado de "peixinho da horta" por morador beneficiado da Horta da Pedreira | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Preparado de "peixinho da horta" por morador beneficiado da Horta da Pedreira | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Itiberê colhendo alguns alimentos na Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Itiberê colhendo alguns alimentos na Horta da Pedreira | Foto: Julia dos Santos
Horta da Pedreira em 2022 | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Horta da Pedreira em 2022 | Reprodução: Instagram Horta da Pedreira
Iniciativas como as hortas urbanas continuam a transformar espaços e fortalecer laços comunitários, revelando o potencial de soluções simples em promover impactos significativos em áreas vulneráveis. No entanto, essas ações também destacam as deficiências de um sistema que frequentemente se apoia na mobilização local para compensar falhas estruturais maiores. No Brasil, onde o acesso à alimentação adequada está profundamente marcado por desigualdades socioeconômicas, raciais e territoriais, projetos como hortas comunitárias representam avanços valiosos. Contudo, Fran Paula destaca: “Considerando a importância de usarmos o conceito de privilégio alimentar, já que há no Brasil uma naturalização da fome e do racismo, é importante então invertemos a narrativa e refletirmos sobre quem tem direito a comer nesse país. A quem é garantido o acesso à alimentação saudável?” Essa reflexão evidencia que essas iniciativas, apesar de essenciais, não são suficientes para enfrentar a insegurança alimentar de forma ampla e duradoura. À medida que ganham visibilidade e ampliam seu impacto, surge a pergunta central: até onde soluções comunitárias podem realmente superar as lacunas deixadas pela ausência de políticas públicas robustas? E mais importante, como podem contribuir para transformar estruturas históricas que perpetuam a fome e a desigualdade no país?

