Entre promessas sociais e retorno financeiro

Como a Blockchain Sports realiza a estratégia de marketing no país futebol

A Blockchain Sports é uma empresa bielorrussa que investe no futebol brasileiro nos estados do Ceará e do Rio de Janeiro. No estado do Rio de Janeiro, os investimentos começaram em 2 milhões de reais para a reforma de quatro campos localizados em quatro comunidades diferentes da capital carioca: Jacarezinho, Rocinha, Complexo do Alemão e Morro do Dendê. Além desses investimentos, a empresa criou no Brasil um reality show inteiramente focado em futebol, com um prêmio de 1 milhão de reais. Mas o que realmente traz uma empresa da Bielorrússia ao Brasil? Os responsáveis pelo projeto da Blockchain no país afirmam que a principal intenção é apoiar crianças carentes através do esporte. No entanto, nos bastidores, o discurso é diferente.

Cofundadores da Blockchain Sports / Foto: Reprodução

Cofundadores da Blockchain Sports / Foto: Reprodução

Projeto social ou Investimento?

 Ao todo, já foram mais de 300 milhões de reais investidos em construções de centros de treinamento, reformas de campos e em estruturas especializadas para a prática esportiva, como academias, psicólogos e nutricionistas, sempre à disposição dos atletas brasileiros. Será que todo esse dinheiro foi usado justamente para ajudar crianças? Com um pouco mais de conversa junto aos responsáveis do projeto, fica evidente que o verdadeiro propósito é a perspectiva de retorno financeiro futuro, seja por meio das plataformas desenvolvidas, seja pelos jogadores formados na Academia.

Foto: Reprodução

Representantes Blockchain Sports Rio

Juninho Pedalada

Presidente da Academia Blockchain Sports Rio de Janeiro

André Vasconcellos

Responsável Técnico da Gravação do Reality Show

Glauco Martins

Diretor de Futebol da Academia Blockchain Sports Rio de Janeiro

Juninho Pedalada, presidente da Academia Blockchain Sports Rio, contou que a ideia inicial era na África, mas, por meio de um jogador conhecido pelo CEO da empresa que atuou muito tempo no Leste Europeu, ele convidou o Dzmitry Saksonau, CEO da Blockchain para vir a Fortaleza e que ele ficou encantado ao conhecer o Brasil. Juninho afirma ainda que a visita do CEO ao Brasil foi um dos principais pontos que o convenceram a trazer o projeto para o Brasil, além disso a fama do país em outros lugares do mundo também pesou na escolha, por já ser conhecido como o “país do futebol”.

Academias pelo Brasil

Atualmente, existem três centros de treinamento espalhados pelo Brasil: dois no Ceará, nas cidades de Acopiara e Sobral — este último, ainda em construção, está sendo projetado para ser o maior da América Latina —, e o terceiro na cidade de Pinheiral, no interior do Rio de Janeiro. Diferentemente dos dois primeiros, o CT João Havelange, em Pinheiral, já estava concluído e não necessitava de obras ou reformas. Com grandes aportes financeiros da empresa, o centro de treinamento, que costumava abrigar elencos profissionais, se destaca pela qualidade de sua infraestrutura.

Foto: Reprodução

“Foi a melhor estrutura que já passei na minha vida. Acho que é uma das melhores estruturas que já passei: comida boa, banho, um dormitório bom, alimentação, todas as coisas”

Keven Santos
Jogador Sub-17

Clube Federado?

Assim como o centro de treinamento de Acopiara, o principal objetivo da Academia do Rio é se tornar um clube federado para poder disputar campeonatos profissionais e reconhecidos pela federação do estado. Pela não profissionalização do time, alguns jogadores ainda ficam com certo receio de participarem do projeto, com medo de estarem longe da vitrine do esporte. Para o diretor de futebol, Glauco Martins, essa desconfiança pode acabar afetando a ida de jogadores para o time: “A verdade é que a gente ainda disputa com o Resende e Volta Redonda, né? A gente tem uma estrutura melhor, porém, como ainda não jogamos pela federação, ainda há uma certa resistência para que aqueles atletas de ponta venham para cá”. 

Com o atraso na federação da equipe, o que resta para os times da Blockchain é a disputa de campeonatos sem licenciamento da FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro). Atualmente, a Academia Blockchain Sports Rio joga a Copa Light, competição que conta com alguns clubes tradicionais do estado do Rio de Janeiro, como Bangu, Boavista e outros, mas que não inclui os clubes da elite carioca, como Flamengo e Fluminense. Paralelamente aos treinos, essa competição tem a função de avaliar o potencial e a qualidade técnica de certos jogadores. O treinador da equipe sub-17, Fabinho Pedalada, comentou sobre a importância da disputa de competições: “Somente com os treinos, achávamos que tinham alguns jogadores que poderiam ser o próximo Ronaldo Fenômeno ou um Neymar, mas a competição realmente serve para separar os jogadores de treino dos jogadores decisivos”. 

Intercâmbio

Em julho deste ano, a equipe foi para a Bielorrússia para um intercâmbio com a categoria sub-17, acompanhada pela Academia do Rio e a de Academia de Acopiara. Eles disputaram cinco amistosos contra clubes profissionais e equipes da mesma categoria, sub-17. Após o retorno, seis atletas viajaram novamente para a Bielorrússia para fazer testes em alguns dos times que enfrentaram. Durante a conversa, o presidente Glauco Martins contou os problemas que a equipe sofreu durante esse intercâmbio. “As refeições eram apenas três por dia, com um café da manhã bem mais básico que o brasileiro, o que, em alguns dias, impossibilitava que os jogadores fizessem treino de força, devido à diferença na alimentação em relação ao Brasil.”

Internacionalização

O principal diferencial do projeto é a facilidade de internacionalização da marca, devido à sua forte presença na Europa, em países como Rússia, Alemanha e Bielorússia e por ter uma de suas sedes nos Emirados Árabes Unidos. Esse posicionamento estratégico tem permitido sua expansão, com diversas filiais  estabelecidas em várias regiões do mundo, sempre com o apoio de embaixadores que promovem o conteúdo e engajam a população local. “No âmbito internacional, cada país tem uma estrutura. Agora estamos no Japão, através do nosso embaixador, Zico, e também temos parcerias com Materazzi na Itália, Kevin Kuranyi na Alemanha, entre outros. Eles fazem esse trabalho lá como fazemos aqui, com as crianças locais”, contou Juninho Pedalada.

Fotos: Reprodução

O Grande Jogo

Em conjunto com esses grandes nomes do futebol mundial, surgiu a ideia de criar um reality show inteiramente focado em futebol, gravado em sete episódios diferentes e com times comandados por estrelas mundiais, como Sorín, Lúcio, Trezeguet e outros. O reality premiará em 1 milhão de reais o time campeão. Os participantes do reality show serão submetidos a uma digitalização usando tecnologias avançadas e equipamentos desenvolvidos pela Blockchain Sports. Utilizando métricas como velocidade de corrida, precisão de passes, eficácia de chutes, habilidade de retenção de bola, resistência e tempo de reação, serão gerados passaportes digitais para cada jogador, representados como cartões NFT. Esses cartões estarão disponíveis em uma plataforma dedicada da empresa.

David Trezeguet

Ex-futebolista franco-argentino que atuava como centroavante. Em 2004 foi nomeado para a FIFA 100, uma lista formulada por Pelé com "os melhores jogadores de futebol vivos".

Bebeto

José Roberto Gama de Oliveira, mais conhecido como Bebeto, é um ex-futebolista brasileiro que atuava como atacante. Trabalhou também como treinador, e atualmente é político.

Amaral

Alexandre da Silva Mariano, mais conhecido como Amaral, é um ex-futebolista brasileiro que atuava como volante.

Juan Pablo Sorín

Ex-futebolista argentino, que atuava como lateral-esquerdo. Foi o capitão da Seleção Argentina na Copa do Mundo FIFA de 2006 e capitão da Seleção Argentina Sub-20 campeã do mundo no Qatar em 1995.

Diego Lugano

Ex-futebolista uruguaio que atuava como zagueiro. Desde março de 2021, atua como comentarista na ESPN Brasil.

Marco Materazzi

Ex-futebolista italiano que atuava como zagueiro. Teve boa passagem pela Internazionale, atuou por dez anos na equipe e conquistou diversos títulos, com destaque para a Liga dos Campeões da UEFA de 2010

Time dos Ídolos

No emocionante reality show, jogadores históricos assumem o papel de técnicos e montam suas equipes através de peneiras realizadas em dois centros de treinamento: metade dos times surge do CT em Acopiara, enquanto a outra metade é formada no moderno CT em Pinheiral. Após semanas de desafios e treinos, os episódios finais são com as equipes se enfrentando em um torneio épico que coroará o grande campeão da temporada. A rivalidade entre os jogadores que comandam as equipes traz uma emoção ainda maior para as fases finais do reality. Marco Materazzi, ex jogador da Inter de Milão, comentou um pouco sobre a rivalidade com o técnico do primeiro time que enfrentará: "Agora somos todos amigos, não é mesmo? Sempre competimos nos campos porque sempre representamos dois times muito diferentes: Inter e Juventus. Mas agora somos amigos, e não há problema algum com ele (Trezeguet). Talvez, quando tivermos o grande jogo, lutemos novamente, mas, quando o jogo terminar, voltaremos a ser amigos".