CARNAVAL: ENTRE FÉ E FATURAMENTO
REPORTAGEM POR GABRIELA GOMES
O Carnaval do Rio de Janeiro, maior espetáculo popular do país, vive hoje uma disputa de sentidos que atravessa tradição, mercado e identidade.
Em 2025, a polêmica sobre os enredos afro-religiosos expôs tensões antigas: de um lado, carnavalescos que questionam a repetição de fórmulas e a dificuldade de compreensão pelo público; de outro, comunidades culturais e movimentos sociais que defendem esses enredos como instrumentos de memória, resistência e afirmação da herança negra. Ao mesmo tempo, a festa se profissionalizou, movimentando bilhões de reais e atraindo patrocinadores que moldam a lógica dos desfiles, impondo metas de visibilidade e retorno financeiro.
Entre batuques ancestrais e alegorias high-tech, o samba se tornou palco de embates sobre fé, mercado e identidade, revelando que a maior festa popular do Brasil é também território de disputas simbólicas e políticas.
Desfiles com tema afro são todos iguais?
No Carnaval de 2025, a discussão sobre a centralidade das temáticas afro-religiosas ganhou contornos acalorados. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o carnavalesco Paulo Barros afirmou que “a maioria dos enredos desse ano são afros, tudo já foi visto e revisto, e eu posso te garantir que 90% de quem está assistindo o desfile não vai entender nada”. A declaração, vista por muitos como uma crítica ao que chamou de repetição de fórmulas, suscitou reações de resistência em comunidades acadêmicas, ativistas culturais e dentro das próprias escolas de samba.
Carnavalescos e dirigentes reagiram imediatamente. Para alguns, Barros expôs uma verdade incômoda: o público em geral consome o espetáculo como entretenimento, sem compreender suas raízes profundas de um povo que resistiu. Para outros, porém, a fala soou como desdém pela herança negra que é alma do samba. Representantes de blocos de terreiro e movimentos de cultura popular organizaram rodas de conversa e debates públicos, reafirmando a legitimidade dos enredos afro como ferramentas de educação e afirmação identitária.
No meio desse debate, o diretor artístico Fábio Batista defendeu o equilíbrio: “A bateria das escolas de samba é profundamente marcada por ritmos de matriz africana, originados nos batuques realizados por pessoas escravizadas.” Ele explicou que, “mesmo com inovações coreográficas e tecnológicas, a ancestralidade continua sendo o alicerce do nosso compasso”. Para o diretor, “sem ela, corremos o risco de ter samba vazio, bonito na forma, mas sem substância.”
Essa tensão revela um ponto crucial: o Carnaval é, simultaneamente, um artefato cultural de apropriação comunitária e um produto de massa sujeito às leis do mercado. O desafio para as escolas de samba e para a sociedade, é não deixar que o espetáculo consuma completamente o rito, preservando a potência transformadora do samba como memória viva daqueles que vieram antes.
Mercantilizando o Carnaval.
Em 1984, o Rio inaugurou o Sambódromo , um projeto de Oscar Niemeyer que deu ao Carnaval um palco fixo e estruturado. Até então, os desfiles ocorriam em ruas e praças improvisadas; com o novo espaço, o evento ganhou assentos numerados, camarotes e infraestrutura para receber milhares de turistas e emissoras de TV. Essa mudança marcou o início da profissionalização do Carnaval, transformando-o em um grande produto de entretenimento.
A consolidação do Sambódromo deu origem a um modelo de negócio robusto, articulado entre Riotur, ligas de escolas de samba e patrocinadores privados. Em 2024, o Carnaval do Rio foi responsável por R$3,8 bilhões em movimentação econômica, considerando hospedagem, transporte, serviços e consumo no entorno dos desfiles, segundo a RioTour.
Com orçamentos que chegam a dezenas de milhões por escola, há uma clara tensão entre a essência comunitária do samba e as exigências do mercado. Investimentos em alegorias gigantescas, cenografia high-tech e áreas VIP contrastam com a velha lógica dos quintais, onde tudo começava com um atabaque e um grupo de vizinhos.
O diretor artístico da Estação Primeira da Mangueira, Fábio Batista, questiona esse desequilíbrio e alerta para o impacto dos patrocinadores na mensagem transmitida. Ele afirma: “Quando o Carnaval se torna espetáculo global e articulado em torno de logísticas turísticas e patrocínios milionários, precisamos nos perguntar: qual voz está sendo amplificada?”
Em seguida, indaga se é “a do terreiro, que carrega ancestralidade, fé e resistência, ou a do patrocinador, que impõe metas de visibilidade e retorno financeiro”. Para Batista, “se não fizermos essa reflexão, corremos o risco de ver a festa se desgarrar das comunidades que a fundaram e perder o propósito de celebrar nossa história."
Enquanto o Sambódromo atrai holofotes internacionais, o desafio hoje é equilibrar retorno financeiro e autenticidade cultural, mantendo viva a batida ancestral sem se tornar refém do marketing.
Origens da comunidade e Raízes Religiosas
Em 1763, o Rio de Janeiro passou a ser a capital do Brasil e atraiu um fluxo intenso de migrantes de todas as regiões. Após a abolição da escravidão em 1888, milhares de negros libertos se estabeleceram na região central da cidade, formando aglomerados populacionais em becos e quintais. Foi nesse cenário de favelização e exclusão social que emergiu uma cultura musical única, nascida das rodas de samba e dos terreiros de candomblé, longe dos salões oficiais.
Cabral (2011) observa que “nenhum pesquisador do início do século percebeu” que a comunidade negra, instalada no Centro do Rio de Janeiro, criava não apenas um gênero, mas “uma cultura musical”. Na Pequena África, área entre o Cais do Porto e a Cidade Nova, a Casa da Tia Ciata tornou-se o principal ponto de encontro. Ali, músicos como Donga, Pixinguinha e João da Baiana compartilhavam toques de atabaque e cantorias, misturando cânticos religiosos com o improviso do samba.
O componente essencial da música africana é a percussão rítmica, conduzida por atabaques, agogô e xequerê, cada qual dedicado a um orixá ou ritual específico. Segundo Fábio Batista, “a bateria das escolas de samba é profundamente marcada por ritmos de matriz africana, originados nos batuques realizados por pessoas escravizadas”. Ele lembra que, mesmo diante das inovações coreográficas e tecnológicas, “o elemento rítmico afro-brasileiro não se perde, permanecendo como característica central das baterias”.
Pesquisadores como Prandi (2005) destacam que “cada compasso carrega uma oferenda, uma fé e uma história de luta”, reforçando que o samba não é apenas entretenimento, mas também rito e resistência. Nesse sentido, a entrada do samba nos circuitos oficiais do Carnaval modificou sua dimensão religiosa e comunitária, mas não apagou a força ancestral que continua ecoando na avenida.
Hora de voltar às origens
O Carnaval do Rio se firma hoje como um palco ambíguo, ao mesmo tempo reserva de memória ancestral e produto de entretenimento global A profissionalização trouxe visibilidade e recursos, mas também impôs metas de audiência e retorno financeiro que podem eclipsar a raiz comunitária do samba. “As escolas de samba possuem esse poder de alcance e penetração cultural, capazes de provocar reflexão e transformação coletiva.” A frase de Fábio Batista sintetiza o papel político e educativo que o Carnaval ainda pode exercer, caso as escolas mantenham viva a conexão com suas origens.
Em resposta à mercantilização, surgem iniciativas que buscam resgatar a missão original do samba: terreiros abertos ao público, rodas de samba de raiz em favelas, projetos independentes de museus comunitários e manter viva a tradição dos ancestrais da cidade do Rio de Janeiro. Grupos periféricos e coletivos culturais têm promovido oficinas, feiras e encontros intergeracionais, garantindo que as novas gerações sintam na pele a força ritual do batuque, como o Samba do Trabalhador, Samba da Feira, e o Samba da Cabeça Branca, além de rodas como femininas as Mulheres do Samba Notícias e clássico como o Cacique de Ramos.
No compasso final, cabe a cada foliã e folião, de arquibancada, camarote ou rua, decidir se o Carnaval seguirá sendo apenas espetáculo ou se retomará sua alma de festa ritual. Será que, no ritmo acelerado do espetáculo, não estamos perdendo a batida que pulsa na origem?