A Beleza que o Tempo Revela

Com o impulso de influenciadoras e de narrativas como a de Coracy Arantes, mulheres maduras encontram novas formas de se ver, se cuidar e ocupar seu espaço 

Para muitas mulheres, o simples ato de se olhar no espelho, que deveria ser um momento de admiração, acaba se tornando um verdadeiro tribunal da autoestima. Cada particularidade pode virar um defeito em um simples scroll na tela do celular. E, quando as linhas de expressão e as marcas do tempo começam a surgir, torna-se ainda mais difícil conviver com padrões que ditam que, para ser bonita, é preciso ter determinado corpo, cabelo, cor e, nesse caso, até prazo de validade. No entanto, esse cenário tem mudado com o crescimento de perfis de maquiagem para pele madura, que promovem a valorização do envelhecimento feminino. Influenciadoras compartilham técnicas de maquiagem e dicas de produtos que realçam peles com sinais da idade, ajudando a transformar a maneira como as mulheres lidam consigo mesmas e com a própria aparência. 

a close up of a silver watch face

Photo by Agê Barros on Unsplash

Photo by Agê Barros on Unsplash

O aumento da presença sênior nas redes sociais ajuda a explicar por que perfis de maquiagem para pele madura têm crescido tanto. Segundo o IBGE, sete em cada 10 brasileiros acima dos 60 anos estão online, criando uma audiência que quer se ver representada, aprender, se cuidar e redescobrir sua autoestima. A influenciadora Regina Cimino (@gicimino) é um reflexo disso. Ela é empresária e maquiadora especialista em pele madura, produz conteúdo com dicas e tutoriais, dá cursos de automaquiagem e tem sua própria marca de cosméticos, a Maika’ii Cosméticos. Gi conta 156 mil seguidores no Instagram e 64 mil seguidores no Tiktok, onde teve alguns vídeos virais. Ela encontrou na ausência de representatividade o impulso para se especializar em maquiagem para pele madura, ela relatou: “A mulher madura simplesmente não existia nessas narrativas, e isso me incomodou profundamente”. Ao perceber que tutoriais e campanhas eram focados quase exclusivamente em mulheres jovens, com peles perfeitas e filtros, ela identificou um vazio profundo: o da mulher de 40, 50, 60+ que busca orientação, mas não se vê em nenhum lugar. Como mulher madura, ela também sentiu na própria pele o peso da invisibilidade, o que a motivou a criar um espaço onde a maquiagem não tivesse idade, apenas acolhimento e autoestima. 

Seus conteúdos passaram a transformar a relação de milhares de mulheres com o espelho. Gi recebe diariamente relatos de seguidoras que voltaram a se reconhecer depois de anos, resgatando a própria identidade a partir de técnicas pensadas para a realidade da pele com sinais. Entre tantas histórias, ela destaca a de uma aluna que acreditava “não ter mais idade para ficar bonita” e que, ao aprender a valorizar seus traços, emocionou-se ao contar: “Você me devolveu a mulher que eu tinha esquecido aqui dentro”. Esse impacto tem ainda mais peso quando se observa o cenário emocional dessa faixa etária: dados do Observatório Nacional da Família (2022) mostram que os idosos apresentam a maior prevalência de depressão no país. Diante desse quadro, para a influenciadora, maquiagem pode ser usada para além da estética, como uma ferramenta de acolhimento, de resgate de autoestima e até de reconstrução da saúde mental.  

Gi Cimino, influenciadora digital, em imagem publicada em seu perfil no Instagram (@gicimino).

Gi Cimino, influenciadora digital, em imagem publicada em seu perfil no Instagram (@gicimino).

Foto: Reprodução/Instagram: @gicimino

Foto: Reprodução/Instagram: @gicimino

Regina também observa que o mercado de beleza começou, mesmo que devagar, a acompanhar essa mudança. “Ainda há o que evoluir, claro. Mas o mais importante é que o mercado despertou: percebeu que a mulher 60+ é ativa, vaidosa, tem poder de escolha e quer se ver representada”, ela conta. A criadora acredita que este é um movimento que, impulsionado pela força de mulheres maduras que, ao reencontrarem sua beleza autêntica, reivindicam o direito de ocupar, com orgulho, o espaço que sempre lhes pertenceu. A presença de mulheres como ela ajuda a combater a ideia de que envelhecer é ruim. Elas mostram que além de possível, é necessário se cuidar e se amar em qualquer fase da vida. Muitas seguidoras relatam como passaram a se sentir visíveis novamente, em um mundo que frequentemente descarta mulheres mais velhas como ultrapassadas.  

A autoestima também envelhece

— e pode florescer

A psicóloga Izabel Pereira dos Santos explica que o impacto do envelhecimento na autoestima não é uniforme: “Cada ser humano é único. A visão de mundo de cada um é que define se esse processo será suave ou doloroso”. Para ela, autoestima não está necessariamente ligada à beleza, mas sim à forma como a mulher se vê e interpreta cada fase da vida. Em uma sociedade que associa valor à juventude, muitas mulheres enfrentam esse processo sentindo que perdem espaço ou relevância, mas Izabel reforça que o envelhecer, quando compreendido com naturalidade, pode se tornar um caminho de autoconhecimento e não de sofrimento. 

Nesse caso, a falta de representatividade no ambiente digital, segundo a psicóloga, pode intensificar sentimentos como isolamento e solidão, já que muitas mulheres não se veem nas campanhas publicitárias, nos tutoriais de maquiagem ou nos conteúdos que circulam diariamente na internet. Ainda assim, ela destaca que o cenário tem mudado: “Cada vez mais vemos grandes marcas dando espaço para mulheres maduras”. A abundância de nichos e comunidades online permite que essas mulheres busquem referências que dialoguem com suas vivências, encontrando criadoras que mostram que há espaço para todas as fases da vida. A psicóloga também aponta que conteúdos voltados para maquiagem de pele madura funcionam como ferramentas de acolhimento porque devolvem às mulheres um senso de pertencimento. Representatividade gera identificação, e identificação reconstrói identidade.

Quando a mulher percebe que existe um nicho feito para ela, com influenciadoras da mesma faixa etária, lidando com questões semelhantes, cria-se um ambiente mais democrático, no qual cuidar da aparência pode se transformar em uma experiência terapêutica. “Um dos pilares do tratamento da depressão é o autocuidado. A maquiagem entra como aliada, não como ponto de partida”, afirma ela. A maquiagem não é cura, mas pode ser um apoio emocional. 

Vovó Cora (Coracy Arantes), que faleceu em agosto deste ano, foi um grande símbolo desse movimento. Aos 82 anos, ela acumulava mais de 6 milhões de seguidores no TikTok, mas seus conteúdos começaram em 2019, quando pediu ajuda ao neto Gabriel para sair de uma depressão que enfrentava há mais de 40 anos. Com seus vídeos alegres e cheios de energia, ela se tornou referência não apenas pelos seus vídeos, mas por sua forma de viver o envelhecimento com orgulho e leveza. Seu legado vai continuar sendo inspiração para milhares de mulheres maduras que agora passaram a ter mais confiança.  

Coracy Arantes, referência entre mulheres maduras nas redes, em foto divulgada no Instagram.

Coracy Arantes, referência entre mulheres maduras nas redes, em foto divulgada no Instagram.

Seu neto, Gabriel Arantes, revela como o início da trajetória digital dela foi marcado por um propósito simples: encontrar alegria em meio à depressão. “O intuito inicial foi esse, distração e alegria pra ela conseguir se divertir um pouco”, conta. O que começou como uma tentativa de ocupar a mente transformou-se em um processo profundo de autocuidado e valorização da autoestima. A maquiagem, que antes se encontrava em pequenos gestos, como um “blushzinho”, tornou-se símbolo de poder e de transformação. Esse movimento não impactou apenas ela, mas também milhares de mulheres que se reconheceram em seus vídeos. Gabriel lembra que muitas seguidoras relatavam estar “na beira da depressão” e encontraram nos conteúdos dela uma nova forma de se cuidar. Algumas diziam que já não viam sentido em se arrumar aos 35 ou 40 anos, mas ao assistir uma mulher de 80 esbanjando vaidade e a alegria, sentiram-se inspiradas a “dar a volta por cima”. A identificação era tão intensa que muitas passaram a chamá-la de “vovó” também, criando vínculos emocionais que iam além da tela. 

A família também desempenhou papel essencial nesse processo, o apoio foi combustível para que Cora se mantivesse ativa e confiante. “Quando minha tia levava ela no hospital, nos médicos, e reconheciam ela, ela sempre falava com muito orgulho: é ela mesmo, ela é blogueira”, diz o neto, que esteve ao lado dela em gravações, viagens e campanhas, destaca o orgulho coletivo. Esse suporte reforça o que especialistas apontam: o envelhecimento saudável depende não apenas de cuidados individuais, mas também de redes de afeto e pertencimento. 

Para Cora, envelhecer nunca foi sinônimo de perda. Pelo contrário, ela enxergava essa etapa como a melhor fase da vida, marcada por liberdade, descobertas e novas experiências. “Ela nunca falou sobre estar velha e ser feia. Para ela, ela sempre foi linda e nunca deixou de se cuidar”, lembra Gabriel. Essa visão destaca que é possível viver a velhice com leveza e orgulho. O legado de Coracy transcende sua própria história. Ele se materializa em mulheres que, inspiradas por sua coragem, decidiram ocupar o espaço digital, criar conteúdo e reconstruir sua autoestima. Sua trajetória foi reconhecida até pela Forbes Brasil, que a incluiu na lista 50 Over 50 em 2023, fato que ajudou a consolidá-la como referência pioneira de representatividade sênior na internet. Mais do que números, o que permanece é a inspiração: a lembrança de uma mulher que transformou dor em potência e que mostrou que saúde mental também pode ser cuidada com afeto, vaidade e conexão.

A influenciadora Coracy Arantes ao lado do neto Gabriel, em imagem publicada no Instagram.

A influenciadora Coracy Arantes ao lado do neto Gabriel, em imagem publicada no Instagram.

Mas o impacto desse movimento não se limita às redes sociais. No dia a dia, mulheres longe dos holofotes relatam como o simples ato de se maquiar ou se ver representadas mudou a forma como se enxergam diante do espelho. “Quando estou maquiada me vejo como outra pessoa, me sinto mais madura, vivida, com autoestima completa”, conta a dona de casa Lucineia Mendes, de 57 anos. “Sem maquiagem me sinto desconfortável, quase incompleta, como se não estivesse preparada para sair para o mundo.” Para ela, o ritual de se arrumar é essencial, ela conta que ajuda com a autoestima e, “dá a chance de me sentir mais bonita e confiante” em sua pele. Lucineia também observa que mulheres mais velhas ainda não são representadas nas redes sociais e na publicidade como as mulheres jovens, mas acredita que o envelhecimento deve ser celebrado: “envelhecer é uma dádiva”. 

Renata Resende, 50 anos, nutricionista, conta sobre uma relação madura e em transformação com o próprio reflexo, reconhecendo as rugas e linhas de expressão como marcas de sua trajetória. Hoje, ela relata que enxerga as rugas e linhas de expressão mais acentuadas como “resultado implacável do tempo, das experiências e vivências” pelas quais passou. Ela relembra momentos em que dependia de maquiagem e filtros, mas hoje se permite a não ficar refém disso. Ao mesmo tempo, navegar na internet pode ser desafiador pela tendência à comparação, mas, segundo ela, quando o equilíbrio emocional está presente, isso se torna mais administrável. “Não tínhamos a diversidade de padrões que já se começa a ver na mídia.” Renata expõe que os padrões de beleza exerceram forte influência em sua juventude, o que gerava frustração diante de modelos impossíveis de alcançar. Para ela, ainda falta representatividade de mulheres 50+, mais conteúdos que mostram mulheres reais e mais perfis como o da Vovó Cora que ajudam a fortalecer autoestima e autoconfiança. “O universo feminino, quando bem representado, produz mais autoconfiança e felicidade”, diz.  

A relevância desse debate cresce ainda mais diante da transformação demográfica do país. De acordo com a Agência Senado, daqui a 45 anos, brasileiros com mais de 60 anos deverão corresponder a 37,8% da população, o equivalente a 75,3 milhões de pessoas idosas. Em um país que envelhece rapidamente, discutir representatividade, autocuidado e autoestima na maturidade deixa de ser um interesse individual e passa a ser uma pauta social importante, especialmente porque essas mulheres, hoje em número maior, seguem buscando espaços onde possam se ver como são: diversas, reais e plenamente capazes de ressignificar sua própria imagem.